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Yuri Pires: A Educação pela pedra contra o Narciso absoluto

Por Yuri Pires
Escritor e professor de Língua Portuguesa

A Educação pela pedra, obra máxima de João Cabral de Melo Neto, completa cinquenta anos em julho. O interesse, sempre renovado, na obra do recifense motiva novas pesquisas e edições, o que atrai novos leitores.

“O que escreverei daqui para a frente não terá talvez a mesma consciência.”, escreveu o poeta aos editores ao enviar o livro para análise. Não à toa. Essa obra é o marco de uma nova poética: é onde a relação entre a crítica da linguagem e a crítica da realidade é mais aguda, segundo o professor Antonio Carlos Secchin. Os 48 poemas deste livro – sempre compostos em duas partes que ora se repelem, ora se associam – buscam uma dialética do dar a ver, ou seja, procuram ilustrar o real para possibilitar ferramentas para leituras e reinterpretações possíveis desta realidade. É a negação de uma poesia voltada para o dentro do poeta, para sua subjetividade. O que não significa um apagamento da individualidade.

Ao contrário, consciente de seu lugar, Cabral recusa em seus versos um indivíduo desendereçado. Os poemas são historicamente situados, não se pretendem universais. Sua resposta, numa entrevista a Osvaldo Amorim, em 1972, quando perguntado de sua intenção ao escrever Morte e vida severina, demonstra um pouco da sua visão sobre a questão: “Minha intenção, escrevendo este e outros poemas que tratam do nordeste brasileiro, não foi denunciar as suas estruturas feudais. Familiarmente, estou ligado aos beneficiários dessas estruturas feudais. Minha sinceridade ao denunciá-las não poderia ser completa. (…) Apenas escrevi a minha experiência, isto é, o que vi e vivi.”.

No cinquentenário d’A Educação pela pedra, essa postura é uma exceção: o eu em evidência diuturna é a marca deste momento da modernidade. Artistas, em geral, não fogem à regra. Não é o dar a ver que interessa, a busca é pelo dar-se a ver. É como se todos nós, leitores, assimiladores/disseminadores de arte em geral, fôssemos apenas espectadores da vida de artistas em modo snapchat.

A diferença é do olhar sobre o leitor: no poema Para a feira do livro delimita-se um contraste entre a pintura e o livro: enquanto a primeira está disponível para ser olhada por quem passar a sua frente, o segundo exige uma ação – “modesto: só se abre se alguém o abre”. O livro é “severo”: “exige que lhe extraiam, o interroguem;”. Ou seja, para o livro, e assim deve ser para o artista, não basta que o comprem: o leitor é partícipe, cidadão, não um cliente de um produto pronto, ele é fundamental para a construção da arte.

Perguntado por Geneton Moraes Neto sobre a subjetividade do artista, numa entrevista de 1986, Cabral respondeu: “tenho a impressão de que nenhum homem é tão interessante para se dar em espetáculo aos outros permanentemente.”. Na época do Narciso absoluto, a leitura d’A Educação pela pedra é ainda mais importante que há cinquenta anos.


Fonte: Diário de Pernambuco

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