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A primavera feminista no Brasil

Protestos explodem pelo pa
Protestos explodem pelo pas pela liberdade de controlar o prprio corpo e a vida. Crdito: CRIS FAGA/FOX PRESS PHOTO/ESTADO CONTEDO
[FOTO]Aline Moura
alinemoura.pe@dabr.com.br

O feminismo floresce no Brasil, como a primavera. Em todos os estados, mulheres protestam para manter seus direitos e se empoderar, ou seja, ter o domínio da próprio corpo e da sua vida. Os motivos são vários, como a conquista da igualdade e a participação em espaços de poder, mas um salta aos olhos: nenhuma mulher, usando saia comprida ou curta, quer entrar nas estatísticas cruéis dos “sete minutos”. Sim, a verdade é angustiante. A cada sete minutos, uma mulher sofre violência no país, segundo dados divulgados em março pelo governo federal. Numa velocidade constante, contudo, cresce um movimento contrário para denunciar que faz barulho. A dor nossa de cada dia também reforça o embate contra os privilégios de classe,  de raça e de gênero.

Dona Jane*, nome fictício, era jovem quando o noivo a estuprou, hoje tem quase 70 anos. O rapaz queria fazer sexo antes do casamento, ela não desejava o mesmo. Pretendia se casar “virgem”, como sempre sonhou. As negativas e vários “nãos” de Jane foram insuficientes e o noivo a estuprou na primeira oportunidade que ficaram sozinhos. Jane engravidou e teve de se casar com seu abusador, como era costume na época. “Eu fui estuprada”, contou à reportagem,  resignada, anos depois de um casamento já desfeito.

Histórias como essa ainda se repetem no Brasil, mas são cada vez mais repudiadas. Jane não usava roupas curtas, não bebia, não vivia em festas. Mas tornou-se alvo de estupro do noivo. Outras mulheres, como a garota do Morro do Barão, no Rio de Janeiro, também são vítimas da mesma violência e são culpadas por seu comportamento. No caso do estupro dos 30, que provocou comoção nacional, houve uma situação de guerra, brutal, desigual. O que só mostra o seguinte: elas dizem “não” e são estupradas e apontadas e julgadas. Acusadas, em alguns momentos, pelas próprias mulheres, que ainda não entenderam que também podem ser vítimas um dia. As mulheres muçulmanas, vestidas de burcas, também são violentadas e algumas viram escravas.

As feministas destacam, entretanto, que vítima não tem culpa em qualquer das circunstâncias descritas (veja no quadro). É por isso que todas as campanhas na internet nas quais as mulheres expõem o corpo, como a feita nesta última semana pelas atrizes Glória Pires e sua filha, Cleo, reforçam o direito de domínio do próprio corpo. E por isso o feminismo, ou feminismos (existem várias vertentes) ganha força novamente no Brasil, como aconteceu no século 19, nos anos 1960 e nos anos de 1980, como argumenta a psicóloga Ana Paula Portella, autora da premiada tese Como morre uma mulher? Ana Paula explica que já houve luta pelo direito ao voto, pelo direito de evitar a gravidez, e pelo direito de se organizar, cada um em sua época. Ainda assim, qualquer uma de nós pode ser alvo de violência, seja coberta de roupas ou de minissaia.

A marcha das vadias, que teve origem em Toronto, no Canadá, choca por expor os corpos nus e mal cobertos. Nesse protesto, contudo, as mulheres querem dizer que, ainda que estejam nuas, ou com pouca roupa, elas têm o direito de dizer “não” e direito sobre o próprio corpo. A primavera mostra flores de todas as cores e, como elas, as mulheres têm causas múltiplas para lutar.

 

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H vrios tipos de feminismos no Brasil, mas um ponto consenso: a mulher dona do prprio corpo e ningum pode viol-lo. Crdito: Paulo Pinto/ AGPT/Fotos Pblicas

O grito, que antes era abafado, soa bem alto

O grito das mulheres, cada vez mais alto, faz desabrochar o empoderamento. Mas a luta é árdua. A delegada Cristina Bento, que está à frente do caso dos 30, disse nessa última semana ao jornal El País. “Todo mundo está falando da cultura de estupro no país, mas ainda é pouco”. A delegada tem razão. Pouco antes de seu duro comentário, a repórter do IG, que denunciou o assédio do cantor MC Biel, tendo como prova áudios constrangedores, foi demitida. Recebeu promessas do portal de que seria protegida se fizesse a denúncia. Porém, ela e a editora foram dispensadas.

As mulheres protestaram novamente, nas redes sociais e nas ruas e criaram uma Fanpage para contestar, gravaram vídeos mostrando o rosto, contando os assédios sofridos. Criou-se uma hashtag de solidariedade ao caso (#jornalistascontraoassédio) e um manifesto apoiado por centenas de jornalistas. Mas “ainda é pouco”, como bem disse a delegada e não se pode descansar.

Campanhas nas redes sociais ganharam vida e ajudaram a conscientizar as “manas”, como “#meuamigosecreto”, “#meuprimeiro assédio”. “É o boom feminista no país, que se iniciou há três anos, com o fenômeno mundial da marcha das vadias”, como explica a psicóloga Karla Galvão Adrião. Mas Karla Galvão reforça que o machismo está impregnado no nosso cotidiano, sendo um desafio diário combatê-lo. “Transformar as relações sociais passa por um processo de autotransformação cheio de altos e baixos. Não é uma escada em que estamos sempre subindo. Trata-se de uma evolução. Mas vejo uma grande coragem em todas que se assumem como feministas”, acrescenta a psicóloga, que tem uma tese de doutorado Encontros do Feminismo. Uma análise do campo feminista brasileiro a partir das esferas do movimento, do governo e da academia.

Professora e investigadora da Universidade Federal de Pernambuco, Soraya Barreto reforça que, se não houver luta, há possibilidade de retrocessos, sim, até mesmo nos direitos conquistados. Especialmente num momento em que o ministério que englobava as mulheres e as minorias foi extinto e em tempos  sombrios do Congresso Nacional, onde deputados federais esquecem da importância do estado laico para pautar projetos baseados em religião. “Simone de Beavouair dizia: ‘nunca se esqueça que basta uma crise política, econômica ou religiosa para que os direitos das mulheres sejam questionados. Esses direitos não são permanentes. Você terá de manter-se vigilante durante toda a vida’. Alguma dúvida que vivemos, no agora, um momento de crise política, econômica e religiosa?”, indagou.

 Soraya é doutora em ciências da comunicação pela Universidade Nova de Lisboa, UNL, Portugal e sua tese de doutorado chama-se “Género e Média: estereótipos das Masculinidades na Publicidade das Revistas Masculinas em Portugal”. O estudo mostra que o machismo é mundial, embora o Brasil esteja no quinto lugar no ranking de feminicídio, segundo dados da Organização das Nações Unidas. Atrizes e cantoras de todo mundo estão revelando, sem vergonha, histórias de assédio e violência. A cantora Beyoncé, uma das mais populares do mundo, lançou este ano o disco Lemonade onde desnudou a sua alma, apresentando canções feministas, protagonizada por uma mulher negra, que fez do limão uma limonada. (A.M)
 

 

[FOTO 3]A necessidade da luta
Entre as correntes feministas, um ponto é consenso. A luta pelos direitos não pode cessar, porque eles podem retroceder sem vigília. “O feminismo é uma postura política que, aliado a outras forças ou movimentos  sociais libertários, impulsiona a construção de uma sociedade mais justa. É  o que queremos. É necessário lutarmos por mais respeito com as mulheres, contra o assédio sexual, pelo direito de ir e vir nos metrôs, ruas, ônibus  trajando as roupas que quisermos usar, assim como é fundamental a luta por salários iguais para postos de trabalho iguais, o que não acontece, as mulheres ganham 30% menos do que os homens”, diz Elisabeth Juliska Rago. Ela é formada em Comunicação Social, Serviço Social, com mestrado em História Pela PUC  e doutorado em Ciências Sociais pela PUC. Autora da tese de doutorado Feminismo e Medicina na Bahia.

Movimento tem contado com a participa
Movimento tem contado com a participao de muitas jovens Crdito: Paulo Pinto/ AGPT

O quarto florescimento
Quando a voz das mulheres se levanta, isso se reflete nos debates de classe, de gênero e de raça. “Acredito que há uma primavera que vem sendo construída nos últimos 30 anos. O feminismo não é novo no Brasil, as brasileiras lutam desde o século 19, começando pelo direito de votar.  Teoricamente, são três ondas. A segunda veio nos anos 60, pelo direito à contracepção, e a terceira nos anos 80, quando as organizações feministas começaram a se organizar. Essa é a quarta onda… esse florescimento é diferente do terceiro, que surgiu nos anos 80. É mais ampla e tem um alcance maior por conta das redes sociais. Acho que agora não tem um único objetivo. As mulheres devem falar do que elas quiserem. Não há hierarquia, porque se trata do corpo, da violência, do trabalho. Há espaço para todas as lutas”, frisa Ana Paula Portella. Ela é psicóloga, mestra em saúde pública pelo Centro de Pesquisas Aggeu Magalhães/Fiocruz, Recife-PE, doutora em sociologia pela Universidade Federal de Pernambuco. Autora da tese Como morre uma mulher? Configurações da violência letal contra mulheres em Pernambuco

Mulheres come
Mulheres comearam a perceber que no precisam mais conspirar umas contra as outras para ter espao. A luta muito mais ampla agora do que aquela travada antigamente, que era conseguir um marido capaz de sustent-las. Rovena Rosa/ Agncia Brasil

Mulheres x mulheres
Por muitos anos, as mulheres foram obrigadas a competir umas com as outras e a usar de sedução para conquistar um homem que pudesse sustentá-la, porque, sem educação, a elas só restava o papel de ser propriedade. Foram criadas aprendendo a conspirar umas contra as outras. O feminismo defende o acolhimento e a solidariedade entre as mulheres. O termo para isso se chama sororidade. “Desde crianças, aprendemos esses discursos (de competição). Ele é construído e reconstruído a partir do que desejamos para ele. O pensamento violento, que diz que tudo que é da ordem do feminino tem menos valor esta entranhado em corpos quer, de mulheres, quer de homens. Mas estamos mudando partir de processos democráticos que passam pelas comunidades, pelos pequenos grupos, e pela escuta de seus desejos, sofrimentos. Acredito que dessa forma, podemos, em pequenas ações ir alterando essas formas de agir e pensar”, frisa Karla Galvão Adrião. Ela é psicóloga, com mestrado em letras e linguística pela UFPE e doutorado em ciências humanas. Autora da tese Encontros do Feminismo. Uma análise do campo feminista brasileiro a partir das esferas do movimento, do governo e da academia.

O crime da mala
Em 1928, um crime chocou o Brasil. Tratava-se do caso de um imigrante italiano, Giuseppe Pistone, que matou a esposa, Maria Fea, e guardou seu corpo dentro de uma mala. Foi um crime cruel ocorrido em São Paulo, depois de uma discussão por conta de dinheiro. Depois de matar a esposa sufocada, que estava grávida de seis meses, ele quebrou seu pescoço e seccionou o joelho para que coubesse na mala. Foi condenado a 31 anos de prisão, mas, por um decreto presidencial, teve a pena reduzida para 20 anos. Casou-se novamente.

Golpes de tesoura
Aos 22 anos, a atriz Daniela Perez foi assassinada em dezembro de 1992 a golpes de tesoura pelo ator Guilherme de Pádua, com quem trabalhava e fazia par romântico na novela De corpo e alma. Guilherme teve ajuda de sua então mulher, Paula Thomaz, para matar Daniela. O crime gerou mudanças na Lei de Crime Hediondos. 

Maníaco
Conhecido como maníaco do parque, o motoboy Francisco de Assis Pereira cometeu uma série de estupros e assassinatos em 1998 no parque do Estado, em São Paulo. Pereira abordava suas vítimas,  todas mulheres, em pontos de ônibus. E as levava para o parque depois de cobri-las de elogios e dizer que tinham potencial para serem modelos. Ele teria matado pelo menos oito mulheres, a maioria por enforcamento.

Santo Aleixo
Em 10 de maio de 2003, cinco mulheres foram assassinadas em Santo Aleixo, em Jaboatão dos Guararapes. O caso ficou conhecido como “Chacina de Santo Aleixo”. Os dois acusados, Pedro Miguel Correia e Paulo Lopes da Silva, foram condenados a 139 anos e 4 meses de prisão. Na ocasião, foram mortas uma mãe, duas filhas, e mais duas meninas menores de idade. Os criminosos estariam procurando os filhos da mulher e, como não encontraram, resolveram matar as mulheres.

O mistério
Em 13 maio de 2003, duas adolescentes, Tarsila e Maria Eduarda, foram encontradas mortas no num canavial no distrito de Camela, em Ipojuca. Elas desapareceram no dia 3 de maio após um passeio de lancha na praia de Serrambi. Os irmãos kombeiros Marcelo e Valfrido Lira foram indiciados pelo crime, mas a defesa pediu anulação do julgamento. Não há ninguém preso pelo crime.

Bruxaria
Em 3 de maio de 2004, a dona de casa Fabiane Maria de Jesus foi espancada por dezenas de moradores por ser acusada de sequestrar crianças para utilizá-las em magia negra, no Guarujá, em São Paulo. O boato foi espalhado numa rede social, mas Fabiane era apenas parecida com a foto divulgada nas redes sociais.  Há um projeto de lei para punir crimes incitados pela internet.

Reviravolta
Maria da Penha é um dos maiores casos de referência, porque, em virtude de todo sofrimento que passou, o Brasil foi obrigado a criar a Lei Maria da Penha em 2006 para proteger as vítimas de violência doméstica. Ela era casada com um professor colombiano Marco Antonio Heredita Víveros. Ele tentou matá-la duas vezes em 1983, primeiro simulando um assalto e depois tentando eletrocutá-la. Ele só foi preso 19 anos depois por pressão da Corte Internacional.

Excomungados
Em março de 2009, o então arcebisto de Olinda e Recife, dom José Cardoso Sobrinho, excomungou a família de uma menina de 9 anos que foi estuprada pelo padrasto e fez um aborto. Os médicos que fizeram o procedimento também foram excomungados. A criança estava grávida de gêmeos e corria risco de vida.

Esquartejamento
O goleiro Bruno Fernandes foi considerado mandante da morte da paranaense Eliza Samúdio, que teve um filho do atleta, mas ele não o reconhecia. Ela foi sequestrada, amarrada, estrangulada e esquartejada. Segundo relatos, pedaços do seu corpo teriam sido jogados num canil.  Em 8 de março de 2013, Bruno foi condenado há 17 anos e seis meses de prisão por homicídio triplamente qualificado.

O estupro coletivo
Um estupro coletivo de uma garota de 16 anos no mês de maio deste ano gerou comoção no país pelo nível de violência a qual ela foi exposta, tendo sido drogada e violentada por cerca de 30 pessoas, no Rio de Janeiro.  Além da monstruosidade do crime, várias pessoas (incluindo mulheres) condenaram a vítima, alegando que, por ela ser ligada a traficantes, ela merecia o que tinha lhe acontecido. Depois desse caso, explodiram denúncias de estupros coletivos no país.

 

Soraya Barreto, no momento em que o conservadorismo cresce no Brasil e no Congresso Nacional,  também vejo uma onda crescente, cada vez mais forte, de mulheres que lutam por seus direitos, pelo fim da cultura do estupro e começam a discutir em pequenos grupos formas de resistência. Eliane Brum, uma jornalista que tenho muito respeito, acredita que está havendo uma primavera feminista no país. Você concorda?

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Soraya Barreto. Crdito: Foto de arquivo pessoal

Concordo. O feminismo se intensificou nas ruas, nos bate-papos e rodas de conversas das amigas, debates familiares. Alcançou mulheres que nunca haviam parado para pensar no assunto ou percebido o quanto as bandeiras feministas fazem parte de sua vida e de suas “liberdades”, mesmo que não se autodenominem feministas. Como comunicóloga e publicitária, ressalto, principalmente, a participação das redes sociais e uma maior democratização da internet ( mesmo que ainda em alguns nichos). A ampla difusão da comunicação, agora de forma plurilateral, configurou-se como um intenso fronte de batalhas, palco de denúncias e campanhas de cunho social e anti sexista, auxiliando o movimento a ganhar um novo fôlego e a se popularizar. Para além disso, importa dizer que a mídia possui um caráter pedagógico, promove e publicita “novas” pedagogias culturais, tendências.

Apesar de alguma preocupação com o esvaziamento do caráter político do feminismo e suas pautas, aspecto que acaba por emergir quando a publicidade e a mídia de massa incorporam certos discursos. No entanto, faz-se necessário, por vezes, simplificar os discursos para que cheguem a novos horizontes. As campanhas do think Olga como #meuprimeiroassédio e #meuamigosecreto, por exemplo, ajudaram a sensibilizar e educar pessoas. Promoveu uma maior consciência da existência da cultura do estupro e de tipos diversos de violência simbólica e física para muitas mulheres, e isso é muito significativo. E, como bem dizes, devido ao engendrar de uma onda conservadora, retrógrada e de extrema direita, pleiteando uma série de retrocessos articulados pelo Congresso Nacional brasileiro, comandados em muitas pautas pela bancada evangélica, várias mulheres se sentiram compelidas a sair às ruas, usar sua voz para denunciar e lutar por direitos já conquistados e que correm riscos eminentes. Vejo no florescer dessa “primavera feminista” uma luta para não retroceder, para não perder direitos e conquistas.

Os casos recentes de estupro coletivo levaram muitas mulheres às ruas a protestar nas redes sociais. O que te chamou a atenção nesse fato? Sempre houve estupros no Brasil, como mostram as estatísticas, o que é muito doloroso. Esse foi o caso de passar dos limites? Tirou a máscara da nossa brutalidade?

Na verdade o caso gerou tanta comoção devido às provas inegáveis (apesar do primeiro delegado do caso ter tentando negar) da execução do crime. Há uma tendência de culpabilizar a vítima seja pela roupa, por andar sozinha, pelo comportamento e sua sexualidade. Há uma tentativa de defender o criminoso com a desculpa do dito “instinto”. No entanto, apesar disso, o estupro é considerado um crime hediondo e quando se publicita a execução de um crime bárbaro, com requintes de crueldade e brutalidade numa ferramenta tão veloz como a internet, a compreensão ocorre de forma mais imediata. E se aliarmos a este fato a periodicidade do crime, que ocorreu ao mesmo tempo que decorre essa ampla discussão sobre o sexismo e o machismo na mídia, a qual chamamos a pouco de “primavera feminista”, o resultado tinha que ser uma maior comoção mesmo. É pertinente dizer ainda, que 2015 e 2016 têm sido considerados os anos do empoderamento feminino e do debate feminista nos meios de comunicação.

Quais os tipos de violência con tra as mulheres que te choraram mais além desse caso conhecido como o caso dos 30?

Os casos são inúmeros e enumerar ou relatar os piores seria injusto. Mas é emblemático pensar na Maria da Penha e toda a brutalidade que sofreu para que tivéssemos acesso à uma lei de proteção contra a violência. O caso da Eliza Samúdio amplamente midiatizado. O caso da criança de 9 anos que foi estuprada no interior pernambucano pelo padrasto e foi excomungada pelo Arcebispo. São muitos, mas todos os casos certamente perfazem uma cartografia do machismo velado e da violência nos nossos corpos.

Você acha que, diante desse Congresso conservador como este, que é possível retroceder nas conquistas das mulheres? Temer extinguiu o ministério que contemplava gênero, raça e direitos humanos.

Sim, é muito possível e cada dia se torna mais clara essa possibilidade. A melhor forma de responder essa pergunta é usar as palavras de Simone de Beauvoir “Nunca se esqueça que basta uma crise política, econômica ou religiosa para que os direitos das mulheres sejam questionados. Esses direitos não são permanentes. Você terá que manter-se vigilante durante toda a vida.” Alguma dúvida que vivemos, no agora, um momento de crise política, econômica e religiosa?

Soraya, percebo que há muito julgamento das mulheres contra as próprias mulheres. Aprendemos desde a infância que as mulheres não são leais (ao contrário dos homens),  que as mulheres estão prontas a “roubar” o nosso marido, que elas são desequilibradas e histéricas no trabalho… Ainda tem o fato de mulheres aceitarem o papel de mulheres objetos. Eu estava vendo um programa ridículo esta semana, onde um cara de peruca se passava por uma mulher e entrevistava um outro cara e tinha mulheres dançando atrás, sem música alguma, “todas gostosas”. Quando uma profissional de Ratinho foi chutada por ele, ao vivo, as mulheres riram. Me diga. Por que isso acontece e como podemos lutar contra isso?

Essas adjetivações e suposta rivalidade é uma construção falaciosa, nenhum sentimento ou comportamento é intrínseco à condição feminina. Homens, mulheres  e quaisquer outros gêneros experimentam todos os tipos de sentimentos, sejam eles bons ou ruins. Esse “mito de uma rivalidade feminina” foi construído socialmente na ideologia vigente da dominação masculina. Essas ideias se sustentam em invenções que regem a existência de uma suposta “natureza feminina”, no qual as mulheres ao invés de se apoiarem, competem entre si. Muitas teóricas argumentam que a união de mulheres é percebida pelo patriarcado como perigosa, coloca em cheque as relações de poder e dominação masculina. As mulheres acharem graça de situações como a que descreve ou do Alexandre Frota dizendo que estuprou uma mãe de santo são sustentadas pela cortina de fumaça que é o machismo e como ele é muitas vezes reproduzido por mulheres que não enxergam como esse tipo de discurso é violento e tóxico para nós mesmas.

Outra pergunta: em que ponto o feminismo peca no empoderamento das mulheres? Percebo que muitas vezes que as feministas falam para elas mesmas, falam para um público que já conhece a violência. Quando alguém participa de um grupo e tem uma opinião diferente, ela já é vista com preconceito. Isso, de certa forma, é falta de sororidade?

Acho que é mais falta de solidariedade mesmo. É a tal cortina de fumaça que citei anteriormente. Mas é preciso, primeiramente, dizer quem existem feminismoS e não feminismo. Existem diferentes correntes e lutas, no entanto, o construto social e as normas vigentes exercem grande poder sobre os nossos corpos e pensamentos. É natural querer falar e ouvir “ecos” dos nossos discursos. Isso nos fortalece e acalenta a ideia de pertencimento. Mas é preciso falar com outrem, falar com outras pessoas. Pessoas que divergem, que concordam, que duvidam, se não for assim que tipo de luta é a minha? É difícil, desgastante e emocionalmente cansativo, mas de extrema importância.

Em que área o machismo prevalece mais na nossa sociedade? Em que área a mulher é mais tratada como objeto e como podemos mudar isso? Tinha uma moça que trabalhava na casa da minha mãe, por exemplo, ela é diarista. Ela se casou com um homem que já havia matado a primeira mulher, queimada, o cara nunca foi preso. E agora, que ela se separou, ele ameaça matá-la. Como podemos lidar com situações como esta, onde a mulher percorre os mesmos caminhos de violência de outras?

O machismo não tem área de predileção, está entranhado no nosso cotidiano. Está nas classes populares e nas mais abastadas. Está na mídia, no comportamento do meu irmão, do seu vizinho, do amigo. Mas também está nas reiterações das amigas, da mãe, da filha. A mudança acontece com luta, com educação, com empoderamento, com compreensão da violência e com DENÚNCIA e punição. Para lidar com situações como esta que descreve, é necessário coragem para agir e força para denunciar.

No mundo, algum movimento feminista te chama a atenção?

Se existem tipos de movimentos (e não correntes e lutas) me configuro dentro do feminismo padrão , aquele que luta pela equidade, sem revanchismo, radicalismo ou configurações separatistas.

Você pode citar as cinco mulheres mais importantes para o feminismo
no Brasil?

Sem dúvida, Nísia Floresta, Bertha Lutz, Patrícia Galvão (Pagu), Laudelina de Campos Melo, Rose Marie Muraro (e tantos outras!!!)

 

 


Fonte: Diário de Pernambuco

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