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Apelo aos pais de meninas

“Acho que você deveria parar de falar de futebol na Folha. Mulher no futebol ou é macho ou é mera companhia do marido ou do namorado no estádio”. Recebi essa mensagem no Facebook. Ele continua: “Mas, apesar dos pesares, gosto das críticas que você faz à CBF”. O problema não é o conteúdo do que escrevo, mas o fato de eu ser mulher.

O que me incomodou, de fato, foi o trecho a seguir: “Outro dia impedi um colega de trabalho de matricular a filha na escolinha de futebol”. Senti uma tristeza enorme por essa menina que nem conheço, mas que representa a realidade de tantas outras.

Pesquisa da marca Always mostra que sete em cada dez garotas sentem que não pertencem ao mundo do esporte, a metade delas (53%) abandona as práticas esportivas até os 17 anos. Os números fazem parte da campanha “Continue jogando #tipomenina”.

Depois dessa idade, o esporte perde o caráter lúdico e passa a ser apenas funcional na vida das meninas, segundo dados do Olga Esporte Clube, uma parceria entre a ONG Think Olga e a embaixada britânica. Para 53%, a atividade física só faz parte de sua vida para emagrecer.

Faz sentido, não conheço nenhuma garota que pratique esporte coletivo, como os homens têm o seu futebol semanal, por exemplo. É um desafio para as meninas, o preconceito e a falta de estímulos estão em toda parte.

Ainda segundo a Always, para 36% das pessoas, as meninas são piores em esportes do que os rapazes, apenas 35% delas é incentivada por amigos e familiares. Uma amiga contou que a filha de nove anos treina futebol de salão e society. Desde os cinco anos, a garota enfrenta resistência de coleguinhas de ambos os sexos, que dizem que ela parece um menino e que futebol não é coisa de menina.

Esse preconceito não nasce com as crianças. Vem da educação que recebem em casa e muitas vezes na escola. “Minha filha começou a jogar futebol com nove anos só com meninos e roubava, como ninguém, a bola dos machinhos. Os pais ficavam fulos da vida. Cansei de ouvir: seu bosta, uma menina está roubando você”, me disse a jornalista Márcia Pereira. Hoje, a garota tem 22 anos e joga futebol em uma universidade na Argentina.

Meninos não deveriam ser criados com regalias e nem com cobranças exageradas. Eles não precisam ser melhor do que as meninas em nada. É nessa fase tão delicada que se aprende conceitos sobre igualdade. As meninas crescerão com mais autoestima e confiança, enquanto eles sentirão menos pressão para que sejam super-heróis.

Meu pai me ensinou a esquiar na água quando eu ainda era muito pequena. Pratiquei todo tipo de esporte. Com nove anos ganhei uma Mobilette, em sociedade com meu irmão, um ano mais novo –sim, hoje parece loucura. Sempre tivemos os mesmos direitos e deveres. Isso certamente teve efeito positivo em minha formação e fez do meu irmão um homem que trata as mulheres de igual para igual.

Faço um apelo aos pais e mães de menina. Deem mais do que amor e educação para sua filha. Incentivem, inspirem, encorajem que ela não apenas pratique esporte, mas escolha aquele que mais gosta. Não existe modalidade de menino ou de menina. Restringir as opções de uma criança dessa forma é dizer desde cedo que ela é incapaz apenas porque nasceu mulher.


Fonte: Folha.com.br

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