Artigo: Memórias do segundo FIF (1969) em Copacabana por Fernando Moura Peixoto

“O cinema é infinito – não se mede. / Não tem passado nem futuro. Cada / Imagem só existe interligada / à que a antecedeu e que a sucede.”

– VINICIUS DE MORAES (1913 – 1980)

 

O 2º FESTIVAL INTERNACIONAL DO FILME – FIF

Com o dobro do tempo de preparação – e também do orçamento – em relação ao primeiro FIF, o 2º Festival Internacional do Filme ocorreu no Cine Metro-Copacabana, de 18 a 30 de março de 1969, durante o governo de Francisco Negrão de Lima (1901 – 1981).

Organizado por Levi Neves (1910 – 1982), secretário de Turismo, e Durval Gomes Garcia (1931 -), diretor do INC, Instituto Nacional de Cinema, o comando executivo do evento coube novamente ao crítico cinematográfico Antônio Moniz Vianna (1924 – 2009) – na foto. À época, o país vivia o impacto do AI-5, Ato Institucional nº 5, “a expressão mais acabada da ditadura militar brasileira (1964 – 1985)”, baixado em dezembro de 1968.

Desta vez foram 180 convidados estrangeiros, dentre eles, Glenn Ford (1916 – 2006), Fritz Lang (1890 – 1976), Joseph Von Sternberg (1894 – 1969), Andrezj Wajda (1926 -), Alain Robbe-Grillet (1922 – 2008), Jacques Deray (1929 – 2003), Roman Polanski (1933 -), Nadine Marquand Trintignant (1934 -), Jean-Louis Trintignant (1930 -), Marie-Jose Nat (1940 -) Claudine Auger (1941 -), Danièle Gaubert (1943 – 1987), Keir Dullea (1933 -), John Philip Law (1937 – 2008), Iain Quarrier (1941 -), Anny Duperey (1947 -), Geneviève Waïte (1948 -), Genévieve Gilles (1946 -), Neda Arneric (1953 -), e Barbara Bouchet (1943 -), uma escultural tcheca naturalizada americana, de 25 anos, cabelos loiros e olhos verdes, que seria capa e assunto constante das revistas ‘O Cruzeiro’, ‘Fatos & Fotos’, ‘Manchete’, e de outras publicações.

Na delegação nacional “todas as correntes do cinema brasileiro” estiveram representadas por 36 nomes selecionados pela direção do festival em uma lista de 72 indicados, que não incluiu diretores e produtores: Anecy Rocha (1942 – 1977), Adriana Prieto (1950 – 1974), Annik Malvil (1933 -), Bibi Ferreira (1922 -), Eva Wilma (1933 -), Dina Sfat (1939 – 1989), Glauce Rocha (1930 – 1971), Glória Menezes (1934 -), Irene Stefânia (1944 -), Irma Alvarez (1933 – 2007), Ioná Magalhães (1935 – 2005), Jacqueline Myrna (1944 -), Joana Fomm (1940 -), Leila Diniz 1945 – 1972), Lilian Lemmertz (1937 – 1986), Norma Bengell (1935 – 2013), Odete Lara (1929 – 2015), Tônia Carrero (1922 -), Carlos Alberto (1925 – 2007), Fábio Sabag (1931 – 2008), Geraldo Del Rey (1930 – 1993), Grande Otelo (1915 – 1993), Hugo Carvana (1937 – 2014), Jardel Filho (1928 – 1983), John Herbert (1929 – 2011), Jece Valadão (1930 – 2006), Jorge Dória (1920 – 2013), Leonardo Vilar (1924 -), Mário Benvenutti (1926 – 1993), Milton Rodrigues (1936 -), Oscarito (1906 – 1970), Osvaldo Loureiro (1932 -), Paulo Autran (1922 – 2007), Paulo José (1937 -), Paulo Gracindo (1911 – 1995) e Tarcísio Meira (1935 -).

ABERTURA NO CINE ROXY E SESSÕES NO RIAN

No dia 17 de março, o filme inglês ‘Oliver’, de Carol Reed (1906 – 1976), abriu o festival no Cine Roxy, em noite de traje a rigor. A Rua Bolívar virou passarela mundial de celebridades, no sentido da Rua Ayres Saldanha para a Avenida N. Senhora De Copacabana. Nas calçadas, de novo, ampla participação popular – todo mundo queria apreciar seus ídolos.

Nos dias subsequentes, no Cine Metro-Copacabana (inaugurado em 1941, fechado em 1977 e demolido, é hoje o Edifício Louis Lumière, com a loja da C&A), sessões vespertinas aconteciam para espectadores comuns. À noite, pela pista da direita da Avenida Copacabana, isolada desde a Rua Constante Ramos, chegavam as personalidades, os artistas, cineastas e convidados especiais. Depois, na saída, podiam ver-se muitos deles andando pelas calçadas, como simples e mortais copacabanenses. Ou ainda, lanchando na extinta Sorveteria Zero, ao lado do Metro, como a belíssima ninfeta Neda Arneric, uma ‘starlet’ iugoslava de apenas 16 aninhos que lambia, gulosa e sensualmente, o seu sorvete, para deleite dos recentes fãs.

EMOÇÕES E POLÊMICAS

Momentos marcantes no decorrer das sessões no Metro. O ator brasileiro Zózimo Bulbul (1937 – 2013) era ovacionado ao entrar em cena como o ‘Jesus Cristo negro’ em ‘A Compadecida’, de George Jonas (s/d – 2012), o mesmo acontecendo com Regina Duarte (1947 -), uma ‘Nossa Senhora grávida’.

O canadense Donald Sutherland (1935 -) foi aplaudidíssimo após um longo monólogo de sua personagem, um milionário otimista, portador de uma doença incurável, no filme ‘Joanna’, de Michael Sarne (1940 -).

A plateia se dividiu quanto ao documentário ‘Devoção pelo Demônio’ (‘Sympathy For The Devil’ ou ‘One Plus One’), de Jean-Luc Godard (1930 -), com os Rolling Stones – alternavam-se vaias e palmas, em um curioso duelo.

Antes da projeção de ‘O Bebê de Rosemary’, o já consagrado diretor polonês Roman Polanski (1933 -) mesclou humor e megalomania. Brindado com prolongados e insistentes aplausos, exclamou em inglês: “I didn’t know I was so big in Rio!” (“Não sabia que eu era tão grande no Rio!”). Embaraçado, o apresentador “traduziu”: “Ele está dizendo que nunca pensou que o Rio fosse tão grande”.

Precedendo a exibição ‘hors-concours’ do filme ‘Teorema’, a atriz brasileira Florinda Bolkan (1941 -), radicada na Itália, subiu ao palco juntamente com a delegação italiana, recebendo, estranha e injustamente, apupos por parte do público, repleto de cinemanovistas, ávidos em apreciar a polêmica fita de Pier Paolo Pasolini (1922 – 1975), ausente do evento.

SIMPÓSIOS E RETROSPECTIVAS

Paralelamente ao festival realizaram-se: o ‘Simpósio de Ficção Científica’, na Maison de France, de 14 a 30 de março, com quinze filmes de longa metragem, alguns curtas e o seriado ‘Flash Gordon’; a ‘Seção Informativa’, no Cine Bruni-Copacabana, de 21 a 28 de março, e a ’Retrospectiva Alberto Cavalcanti’, que mostrou 21 obras do cineasta, feitas entre 1927 e 1955. Os jovens aficionados do ‘cinema novo’ assediaram sempre o renomado diretor brasileiro que desenvolveu sua carreira na Europa.

PREMIAÇÕES E ENCERRAMENTO

Em 30 de março, finalizando o segundo – e último FIF – exibiu-se à tarde, no ‘Simpósio de Ficção Científica’, o filme ‘A Décima Vítima’, do italiano Elio Petri (1929 – 1982). E no Cine Metro, à margem da competição, ‘Dutchman’ de Anthony Harvey (1931 -), e ‘Raquel, Raquel’, de Paul Newman (1925 – 2008), estreando na direção. À noite, também no Metro-Copacabana, procedeu-se a entrega dos prêmios aos vitoriosos, e apresentou-se ‘hors-concours’, ‘O Leão no Inverno’, de Anthony Harvey, em uma bonita festa de confraternização e encerramento.

Filmes de mais de quinze países concorreram à ‘Gaivota de Ouro’. Um seleto corpo de jurados, presidido por Joseph Von Sternberg, realizador austro-germano-americano, escolheu a película argentina ‘Martin Fierro’, de Leopoldo Torre Nilson (1924 – 1978), por sete votos contra três; estes, dados por Alberto Cavalcanti (1897 – 1972), Anselmo Duarte (1920 – 2009) e Walter Hugo Khoury (1929 – 2003), brasileiros.

O ‘Prêmio Especial do Júri’ foi para o britânico ‘Joanna’, de Michael Sarne. Levaram ainda a ‘Gaivota de Ouro’: Mia Farrow (1945 -), melhor atriz, em ‘O Bebê de Rosemary’, de Roman Polanski, e Amidou (1935 – 2013), melhor ator em ‘A Vida, o Amor e a Morte’, de Claude Lelouch (1937 -). Ao nacional ‘A Compadecida’, de George Jonas, coube uma premiação especial pela fotografia em cores, cenografia e roupagens.

UMA CIDADE QUE ERA MARAVILHOSA

Os estrangeiros elogiaram a qualidade do festival, tanto o nível técnico como a amabilidade e a generosidade com que foram recepcionados no Rio de Janeiro, naquele tempo, realmente uma Cidade Maravilhosa. A exemplo do que ocorrera em 1965, no 1º FIF, todos adoraram Copacabana.

Satisfeito, o nosso querido Anselmo Duarte (único cineasta brasileiro vencedor em Cannes – em 1962 conquistou a Palma de Ouro) declarava, em alto e bom som, que não havia conforto similar nos festivais cinematográficos de Cannes ou Berlim:

“Em Cannes a praia é muito pequena e suja. Os frequentadores precisam comprar tábuas para sentar e não ficar em cima das pedras. Não existe uma praia como a de Copacabana, nem hotéis do gabarito do Leme e Copacabana Palace”.

É uma realidade. Não se consegue mais fazer festival de cinema – nem Rio de Janeiro – como antigamente.

 

“Para mim o cinema é um vício. Amo-o infinitamente. Escrevi várias vezes que ele é a arte do século. E ele deve ser crítico.”

– FRITZ LANG (1890 – 1976)

“No cinema, somos todos viajantes. Talvez seja por isso que quando dois namorados vão para o cinema, eles se dão as mãos na sala escura, e não fazem o mesmo no teatro.”

– JOHN BERGER (1926 -)

“A diferença entre os críticos de cinema de antigamente e os de hoje é que nós realmente gostávamos de cinema e sabíamos escrever.”

SALVYANO CAVALCANTI DE PAIVA (1923 – 2011)

 

DO DOUTOR MAURÍCIO, EM VIDA, PARA O FERNANDO

“Caro Fernando Moura Peixoto. Você encaminhou exemplar das coletâneas ‘Os Espectadores’ e ‘O Espectador Lesado’ como doação à nossa Biblioteca Bastos Tigre.”

“Também como ex-cinéfilo (fui um dos fundadores e diretores do Cineclube Macunaíma, que funcionou nessa época na ABI), quero confessar minha admiração pelo seu trabalho, fruto de sua paciência e sua disciplina, sem as quais não seria possível montar tão preciosos álbuns.”

“Espero voltar a lhe escrever proximamente, pois fiquei muito impressionado com as duas coletâneas. Um abraço cordial.”

– MAURÍCIO AZÊDO (1934 – 2013), Presidente da Associação Brasileira de Imprensa, ABI, 27 de novembro de 2007, Rio de Janeiro, RJ.

 

DO FERNANDO AO DOUTOR MAURÍCIO, POSTUMAMENTE

“Prezado Dr. Maurício. Grato pelos elogios. Quem sabe vamos poder conversar longamente muito breve sobre cinema, em outra dimensão.”

“Lamento demais o seu passamento em 2013. O senhor respondia a todas as minhas missivas; os que o substituíram depois que partiu jamais retornaram um e-mail meu, num exemplo de deseducação administrativa. Saudades dos bons tempos… Um fraternal abraço.”

– FERNANDO MOURA PEIXOTO (1946 -), ABI 0952-C, julho de 2016, Rio de Janeiro, RJ.

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Dedicado ao grande amigo JOCA, o jornalista, crítico, historiador e colecionador de cinema JORGE KURAIEM FILHO – que se foi em 2006 –, que parece nunca ter feito nada em sua vida que não tivesse relação com a Sétima Arte.

E que agora deve estar vendo os filmes de que tanto gostava lá em cima, contando histórias fantásticas – com a empolgação e o bom humor de sempre – ao Grande Realizador. E Lhe sussurrando a sua famosa frase:.

“O cinema é uma brincadeira de crianças que dura a vida inteira”.

 

Fernando Moura Peixoto (ABI 0952-C)

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