Chegar ao Parque Olímpico deve ser prova de obstáculos para turistas e torcedores

Chegar ao corao dos Jogos do Rio dever ser uma tarefa desafiadora para turistas e torcedores cariocas mesmo se a ampliao do metr da cidade estiver em operao, mas a maratona pode ser ainda pior se as autoridades tiverem que recorrer a um plano B sem metr que ampliar o nmero de nibus nas ruas e poder paralisar o trnsito.

Projetada para levar o sistema metrovirio Barra da Tijuca, que concentra a maior parte das instalaes esportivas, a linha 4 tinha previso de concluso no dia 1 de julho, mas atrasos provocados por problemas tcnicos na obra e falta de recursos adiaram a abertura para 1 de agosto, apenas quatro dias antes da cerimnia de abertura.

Se inaugurado, o metr olmpico funcionar apenas de forma limitada, tanto em capacidade quanto em intervalo dos trens, o que pode deixar torcedores esperando por longos perodos. Alm disso, s chegar entrada da Barra, a cerca de 15 km do Parque Olmpico, um trecho de quase 30 minutos que precisar ser concludo por meio do corredor de nibus conhecido como BRT.

A menos de um ms da abertura dos Jogos Olmpicos, ainda no possvel saber com certeza qual ser tempo real do trajeto completo, com ou sem metr, o que s ser conhecido de fato em 1 de agosto, quando os primeiros passageiros realizarem a viagem.

“Como est hoje, se inaugurar, a estao da Barra s vai funcionar de forma precria, s para a famlia olmpica. Com essa situao, no vai ter impacto positivo nenhum”, avaliou o engenheiro de transportes Marcus Quintella, professor da Fundao Getlio Vargas (FGV). “Esto preparando uma situao paliativa, que a extenso de BRT, que uma das coisas mais absurdas do projeto”.

Alm da capacidade limitada e da necessidade de integrao com nibus, a operao do metr pode no ser totalmente segura durante a Olimpada devido a uma reduo no perodo de testes decorrente de atrasos, segundo levantamento do Tribunal de Contas do Estado do Rio. De acordo com o tribunal, a previso inicial era que a fase de testes deveria durar cerca de um ano, mas o perodo foi encurtado para apenas dois meses.

R$ 10 BILHES E 6 ANOS

As obras do metr comearam em 2010 e tm custo estimado em R$ 9,7 bilhes. Caso a linha 4 no fique pronta a tempo, o plano B da Prefeitura do Rio prev a criao de linhas de nibus extras para fazer a ligao entre a zona sul e a Barra usando faixas seletivas. Isso tornar a viagem muito mais demorada e ainda pode afetar o restante do trfego da cidade.

Enquanto de metr o trecho Copacabana-Barra seria feito em 15 minutos, de nibus o tempo para a mesma viagem pelo menos trs vezes maior –o que pode ser amenizado devido transferncia das frias escolares para agosto e com a decretao de trs feriados em dias de provas de rua, considerados os mais crticos para o trfego.

“Sem dvida no o mais confortvel para o pblico, nem para a cidade”, reconheceu o diretor de operaes do Rio para os Jogos, Leonardo Maciel. “O BRT no tem a capacidade de carregamento do metr”.

Apesar de o governo estadual, responsvel pelo metr, garantir a inaugurao a tempo para a Olimpada, o prefeito do Rio, Eduardo Paes, disse no fim de junho que esperaria mais alguns dias para determinar se ser necessrio ou no lanar mo do plano alternativo, que inclusive j foi apresentado ao COI (Comit Olmpico Internacional).

O governo estadual fluminense demonstrou confiana na semana passada de que entregar a obra a tempo para a Olimpada, animado com a liberao de um crdito da Unio no valor de R$ 2,9 bilhes para socorrer o Estado, que decretou estado de calamidade pblica em junho em decorrncia de uma crise financeira.

Apesar de a verba federal ser especificamente voltada para gastos com segurana da Olimpada, o governo estadual poder remanejar seu oramento para arcar com os R$ 500 milhes que faltam para a concluso da linha 4, sendo R$ 350 milhes para o pagamento de dvida com a concessionria responsvel pelas obras e mais R$ 150 milhes para o acabamento das reas de entorno.

“Estamos certos e estamos seguros que iremos entregar a linha 4 totalmente operacional aps a realizao de todos os testes para a utilizao da populao”, disse o secretrio estadual de Transportes, Rodrigo Vieira, durante apresentao para a imprensa da estao do metr na Barra da Tijuca, na semana passada.

CRATERAS E TATUZO

Alm da questo financeira, parte das incertezas sobre a concluso do metr para a Olimpada se deve a atrasos ocorridos durante a obra por causa de problemas com a mquina conhecida como “tatuzo”, que perfura o tnel para a instalao do metr.

Em determinado trecho da obra o uso do equipamento provocou instabilidade no solo e ameaou causar danos em diversos edifcios, o que abriu crateras em algumas ruas e forou uma prolongada paralisao.

“O ‘tatuzo’ ficou parado em Ipanema quase 6 meses, isso em um cronograma de um sistema metrovirio fatal. o tipo de atraso que em uma obra metroviria muito difcil de recuperar, voc no aumenta a velocidade do ‘tatuzo'”, disse o professor de Engenharia de Transportes da Coppe/UFRJ Ronaldo Balassiano, que trabalhou na preparao da cidade para os Jogos Olmpicos entre 2012 e 2014.

Segundo Balassiano, especialistas do COI acompanham desde o incio as obras de mobilidade urbana que vm sendo realizadas na cidade, e o metr sempre foi motivo de alerta.

Enquanto persistem as dvidas do lado de fora sobre a concluso a tempo para os Jogos, cerca de 6 mil trabalhadores se dividem em at trs turnos para terminar a obra, que alcanou 97% de concluso no chamado trecho olmpico.

“A gente vai estar trabalhando aqui ainda quando abrirem, mas j vai ter gente indo para os Jogos”, disse um dos operrios.

Outro problema para se chegar ao Parque Olmpico, palco de 16 modalidades dos Jogos, no diz respeito s obras e independe da concluso do metr. Moradores da cidade tm reclamado do preo de R$ 25 para o chamado Riocard olmpico, que ser a nica forma de pagamento para o metr e o BRT olmpicos, com validade para uso ilimitado em um perodo de 24 horas, independentemente se a pessoa fizer apenas duas viagens.

Em comparao, uma passagem regular de metr custa R$ 4,10, enquanto o nibus normal custa R$ 3,80.

Segundo o professor Quintella, da FGV, possvel que muitas pessoas acabem deixando de lado o transporte pblico para acompanhar a Olimpada, mesmo com a proibio ao estacionamento de carros no Parque Olmpico e arredores.

“As pessoas da zona sul, onde est a grande potencialidade turstica e hoteleira, vo ser altamente penalizadas se tiverem que chegar Barra de transporte pblico”, afirmou Quintella.

“Vo ter que pegar metr, descer, entrar num BRT e ir para o local de competio. uma viagem lenta. Ento no vai resolver nada, toda essa gente vai acabar indo de txi, nibus de turismo ou vans especializadas”, disse.

BTR Olmpico


Fonte: Folha.com.br

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