Clóvis Cavalcanti: Crescer para quê?

Por Clóvis Cavalcanti

Presidente da Sociedade Internacional de Economia Ecológica (ISEE)

Conheci Washington, a capital dos EUA, em setembro de 1964. Em junho de 1965, voltei lá para trabalho de três meses no Comitê dos Nove, espécie de conselho, dentro da União Panamericana, que supervisionava a aplicação do programa Aliança para o Progresso, do governo americano. Foi um período muito agradável. A cidade era vibrante, tinha boa qualidade de vida, comia-se bem. Desgraçadamente, a má distribuição de renda, junto com o racismo, deixava a população de cor negra confinada em certas áreas, que eram consideradas perigosas. Ignorando alertas, eu costumava andar em algumas delas, até porque ficavam contíguas ao centro e as pessoas eram simpáticas. 

Não me assustava, apesar do desconforto de verificar uma realidade que negava as promessas do chamado Sonho Americano. Depois do São João deste ano, passei uma semana em Washington. Tirei uma tarde para visitar lugares da cidade que me eram familiares. Fiquei chocado com a perda de qualidade de vida que observei, relativamente a 1964-1965. Locais de comer bem, onde eu almoçava, não existem mais. Só restaurantes caros, mas nesses só se vai para jantar (estive em um, convidado pelo diretor brasileiro do Banco Mundial, Otaviano Canuto, e sua mulher, Gadu). As pessoas se servem em food trucks, alimentando-se da porcaria que é a fast food (também chamada de junk food, ou seja, comida-lixo). Gente engravatada, das instituições que por ali se multiplicam, são clientes dos caminhões. Numa palestra que fiz no Banco Mundial, dia 30 de junho, programada para a hora do almoço, havia sanduíches e outras comidas empacotadas para se ingerir durante a sessão. 

Percorrendo depois áreas pobres do centro de Washington, fiquei ainda mais chocado com o quadro de miséria que pude testemunhar. Gente maltrapilha fazendo da rua moradia ou pedindo esmola aparecia em quantidade que me assustou. Prédios de residência com aspecto de ruína eram comuns. Fiquei pensando como é que 50 anos de crescimento econômico não tinham acabado com aquilo. Que lição tal realidade nos oferece?

Acredito que uma primeira e importante lição é a de que o crescimento econômico constitui uma falácia em termos da eliminação da miséria e da exclusão. Como será o quadro real, de fato, daqui a mais cinco décadas – nos EUA, no Brasil? Terá havido grande melhora? Só muita ingenuidade para crer nisso. O retrato da economia no mundo hoje mostra um setor financeiro governado pelo incentivo geral de expansão da atividade econômica. Como o endividamento é grande, a economia precisa crescer para gerar os fluxos de renda que impeçam a inadimplência. Reside aí a fonte do lucro do capital parasitário que comanda o mundo. Os líderes das nações terminam se tornando agentes da expansão econômica dentro de um paradigma que, por outro lado, nega a existência de limites tanto para a extração de recursos quanto para o lançamento de dejetos no mundo natural, atividades que acompanham inexoravelmente o processo econômico. Assim, finda-se com o discurso circular ou mantra de que é preciso voltar a crescer. No entanto, crescer para quê? Mais uma vez, acredito que as ideias do Papa Francisco na encíclica Laudato Si’ deveriam servir para a necessária reflexão que é preciso fazer com toda seriedade e responsabilidade nesse contexto.


Fonte: Diário de Pernambuco

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