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Editorial: Da época dos ônibus elétricos

A face mais triste da crise econômica é invisível às estatísticas gélidas do desemprego e vai além das notícias sobre a falta de recursos públicos para investimentos sociais. Está nos cotidianos das residências e das ruas da cidade. Já se pode dizer que pequenos indícios indicam a volta de realidades vistas em décadas passadas. Ontem, no comércio popular do Centro do Recife, via-se circular  jovens infratores a atacar visitantes de lojas da famosa Rua das Calçadas, localizada próxima ao Mercado de São José. Eles querem cordões de ouro ou celulares e andam em dupla e à espreita para atentar contra qualquer um.

Cena semelhante se via há décadas atrás: um, dois ou em grupos meninos se organizavam no entorno da Igreja do Carmo, na Avenida Dantas Barreto, para atentar contra quem descia dos ônibus. Por sua vez, mulheres e jovens antes de sair para as compras pensavam que bolsas seriam mais seguras para contemplar vitrines da Rua Nova e Rua da Imperatriz porque precisavam segurar seus pertences protegendo-os.

Nas grandes avenidas, teve época em que as motoristas donas de carros de passeio recebiam recomendação expressa de policiais para que, como medida de defesa pessoal, andassem com duas bolsas: uma verdadeira; outra, do ladrão. Os homens saíam de casa sob apelo para que não reagissem à investida criminosa, fosse de criança ou de maiores. Teme-se que a recessão tenha trazido de volta parte do clima temerário. Já se tornou comum em tempos recentes ouvir relatos de assaltos em sinais da Avenida Agamenon Magalhães a qualquer hora do dia.

São os indícios indiretos do efeito da crise. Tem mais adulto desempregado e o que a falta de dinheiro o final do mês numa casa representa para o bem estar comunitário ainda não se sabe. É provável que, em um futuro, este tema seja objeto de estudo. Que se analise e se constate a eventual redução de verbas para a assistência social, o suposto aumento de criança e adolescente vulneráveis e o crescimento do número dos que entram em conflito com a lei.

Ontem, o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) e o Ministério do Trabalho divulgaram o fechamento de 91.032 vagas de trabalhos formais no Brasil em junho, consolidando uma curva de mais demissões que contratações no mercado de trabalho. Boa parte das vagas que deixaram de existir este ano deve revelar dramas que resvalem em problemas sociais e coletivos, por certo.


Fonte: Diário de Pernambuco

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