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Editorial: Instabilidade na Turquia

A ordem de prisão para 42 jornalistas é o mais recente capítulo da escalada de tensão política na Turquia, após a tentativa frustrada de golpe no último dia 15. O alegado movimento de militares para destituir Recep Erdogan desencadeou uma reação duríssima do presidente eleito, que decretou estado de emergência e passou a promover um expurgo em massa. Situada na fronteira entre e a Europa e a Ásia e colaborador chave no combate ao terrorismo, a Turquia entrou em um túnel de instabilidade política. E isso não é bom para ninguém.

Após sufocar o plano que pretendia apeá-lo do poder, Erdogan deu início a uma ampla caçada a fim de dizimar o suposto movimento conspiratório. A contraofensiva resultou na prisão de 6 mil militares e na destituição de um enorme contingente de profissionais: 15 mil professores, 1,5 mil docentes universitários, oito mil juízes e 7,9 mil policiais. É difícil crer que um grupo tão expressivo de pessoas estivesse organizado para promover um golpe contra Erdogan. Opositores do presidente sugerem até que o próprio líder teria tramado a manobra, como pretexto para ampliar o poder de autoridade a níveis perigosos.

Em um dos vários discursos para justificar suas ações, Erdogan chegou a considerar a adoção da pena de morte, em uma clara demonstração de que está disposto a testar todos os limites da democracia.

A reação contundente do governo turco preocupa autoridades. A Anistia Internacional manifestou indignação com as denúncias de tortura, estupro e espancamento nos centros de detenção do país. “Os detalhes terríveis que documentamos são apenas uma fração dos abusos que podem estar acontecendo nos locais de detenção”, alertou o diretor da organização na Europa. Veio também do Velho Continente outro sinal de descontentamento e preocupação com os acontecimentos em Ankara.

Federica Moreghini, chefe da diplomacia da União Europeia, afirmou que a reintrodução da pena capital inviabilizaria a entrada da Turquia no bloco econômico, pois violaria a Convenção Europeia sobre Direitos Humanos. O recrudescimento político na Turquia ocorre paralelamente a outro fator de instabilidade: a ação de grupos terroristas. Parece que se passou muito tempo, mas no início do mês três homens mataram 44 pessoas e feriram mais de 200 em um atentado no aeroporto de Atatürk, em Istambul. As investigações indicaram que os suicidas eram integrantes do Estado Islâmico e tiveram ajuda de cúmplices. Todos os suspeitos são estrangeiros, de locais como Uzbequistão e Daguestão.

Como a Turquia ocupa posição crucial no combate ao terrorismo, é fundamental que o país encontre sua normalidade institucional. A turbulência na administração Erdogan favorece ações de grupos extremistas, que se aproveitam da crise política para promover atos e mensagens radicais e criminosos.


Fonte: Diário de Pernambuco

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