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Editorial: O futuro da água

O Brasil sediará o Fórum Mundial da Água, um dos mais importantes encontros sobre o tema, em março de 2018. Não à toa o país foi escolhido, pois detém o maior potencial hídrico potável da Terra – 12% da água doce na superfície. Desde a semana passada, autoridades brasileiras discutem a organização do evento que reunirá mais de 100 chefes de Estado. No cenário mundial, a gestão da água é um dos grandes desafios impostos às nações. A má distribuição da oferta penaliza populações, quando, em várias regiões, a falta de educação ambiental para o consumo consciente, leva ao desperdício – demonstração de desprezo às advertências sobre a finitude do recurso estratégico para a perenidade do planeta e das civilizações que abriga.

O desperdício está presente na coleta, nos sistemas de distribuição – na maioria das vezes, sem a manutenção adequada -, no descuido com a vegetação, no uso individual e coletivo. É recurso essencial à produção de alimentos e em várias etapas da produção industrial. Sem ele, as máquinas param. E todas as megaestruturas que definem os diferentes padrões de desenvolvimento tendem a ruir.

No Brasil, 70% da água ofertada estão concentrados na região Norte, que abriga 15,8 milhões de pessoas. Em contrapartida, o Nordeste, com apenas 3% da oferta, abriga cerca de 54 milhões. Além da demografia, a distinção dos biomas aprofunda a diferença e revela o quanto preservar a vegetação está associada à produção de água. Nesse aspecto, o impacto das ações humanas têm estreita relação com preservação do recurso.

Na contramão de todos os estudos e desafiando as consequências das mudanças climáticas, o Congresso Nacional impôs severos retrocessos ao Código Florestal. A recuperação de matas ciliares, de vegetação nativa às margens do cursos d´água, como estabelecia a lei anterior, foi pivô de profunda discórdia e os integrantes da oposição levaram vantagem. A falta de saneamento básico vem mortificando os cursos d’água. Os assentamentos populacionais, sem critérios, motivados pela especulação imobiliárias pesam na eliminação de nascentes. A ação predatória das grandes indústrias também somam para reduzir a oferta de água, igualmente a manutenção de modelos superados de produção no campo.

Não foi preciso ir longe para identificar o quanto a conservação da flora é essencial para a produção de água. Entre 2014 e 2015, São Paulo – a mais rica cidade brasileira – enfrentou crise inusitada de escassez. O sistema Cantareira secou devido ao reduzido volume de chuva, mas, ao seu redor, o desmatamento fazia parte da paisagem. Na caatinga nordestina, a devastação colabora para o avanço da desertificação.

Garantir a oferta de água para a atual e as futuras gerações, democratizar o acesso, implica rever a relação humana com os ecossistemas. Em 1999, o Brasil aprovou a Política Nacional de Educação Ambiental, que introduziria em todos os níveis de ensino uma compreensão transversa e interdisciplinar do tema. Muitos foram os ensaios até 2002. De lá para cá, a PNEA foi escanteada e as campanhas educativas deixadas de lado pelo governo federal. Discutir o futuro exige rever a relação humana com o patrimônio natural. Exige mudanças de comportamento, de consumo e de modelos de negócio. Impõe tirar do papel projetos e programas e traduzir para a realidade as orientações indispensáveis à perenização do recurso.


Fonte: Diário de Pernambuco

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