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Final da Eurocopa é o jogo da vida do emigrante português na França

No mês passado, dias antes da estreia de Portugal na Eurocopa, o recém-eleito Presidente de Portugal Marcelo Rebelo de Sousa, acompanhado pelo Primeiro Ministro António Costa, visitou Champigny-Sur-Marne, uma cidadezinha da periferia de Paris. Por lá, nos anos 1950, uma favela agrupava os portugueses escapados da pobreza e da ditadura salazarista.

O episódio joga luz sobre um aspecto menos conhecido da história colonial portuguesa. No século 19, Portugal especializou-se em “criar gado humano”, “a principalíssima indústria portuguesa de exportação” segundo o historiador Oliveira Martins (1845-1894).

Hoje, o quadro mudou bastante e o imigrante português deixou de morar em favelas para fazer parte da classe média europeia, mas a emigração continua sendo um barômetro do bem estar nacional: no auge da crise financeira, em 2011, o governo do Primeiro Ministro Pedro Passos Coelho conclamou os portugueses a emigrar, para mitigar o desemprego e gerar renda com as remessas para suas famílias.

Dos cerca de 30 milhões de portugueses espalhados pelo mundo (perto de um terço reside no Brasil), o contigente da França é o que mais alimenta o imaginário português.

A vida dos “emigras” na França é contada no filme “A Gaiola Dourada” de Ruben Alves (2013), espécie de versão portuguesa do “A Que Horas Ela Volta” de Ana Muylaert (2015): uma comédia subversiva que aborda um tema sensível e fundamental para a compreensão da identidade nacional.

Pacatos, brancos e católicos, os emigras portugueses estão perfeitamente integrados na paisagem francesa: cada bairro tem o seu boteco português, onde fazem pausa aqueles que tocam o dia a dia da cidade: porteiros, faxineiros, encanadores. Religiosamente, eles se reúnem aos domingos em certos cafés e centros comunitários para assistir os clássicos entre Porto, Benfica e Sporting de Lisboa.

Esses lugares estarão especialmente lotados neste domingo. Uma final França-Portugal é o jogo da vida de um emigra, ainda mais quando cinco dos titulares prováveis são portugueses nascidos na França ou franceses de origem portuguesa.

O time de Portugal conta com Anthony Lopes, goleiro reserva formado pelo Lyon, Raphael Guerreiro, lateral esquerdo revelação do Borussia Dortmund, e Adrien Silva, volante do Sporting de Lisboa. Do lado francês, o avô do astro Antoine Griezmann, Amaro Lopes, foi goleiro do Paços de Ferreira, em Portugal, antes de emigrar para Mâcon em 1957. Griezmann é o sucessor de outro luso-descendente, Robert Pires, grande atacante da seleção nos anos 2000.

Se Portugal se consagrar campeão europeu, a história dirá que a seleção lusitana deixou de apostar tudo em Cristiano Ronaldo para montar um time de batalhadores modestos e de origens diversas, dispostos a morrer em campo pelo seu país. Essa história pode ser a redenção dos emigras, prisioneiros da sua identidade híbrida, ironizados por causa de sua fala portuguesa hesitante quando passam férias em Portugal e caricaturados pelas suas origens humildes na França.

Esquecido por uma memória nacional seletiva, o sacrifício dos emigras na França ganharia finalmente um lugar de destaque no panteão de Portugal. Eles merecem. Afinal, como alegou o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa em Champigny: “A França é excepcional, mas nós [Portugueses] somos muito melhores, mas muito melhores”.

MATHIAS ALENCASTRO, doutor em Ciência Política na Universidade de Oxford e mestre em Historia na Universidade Sorbonne Paris-IV. @Mat_Alencastro


Fonte: Folha.com.br

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