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José Paulo Cavalcanti Filho: Não roubarás

Por José Paulo Cavalcanti Filho

Jurista e membro da Academia Pernambucana de Letras

Pessoa de Moraes, autor de livros como Sociologia da Revolução Brasileira (1965) e Tradição, Transformação no Brasil (1968), era sociólogo, professor da UFPE e uma grande figura. Talvez fosse levemente excêntrico, é justo dizer. Mas nesse relato interessa é que, encerrando programa que tinha na TVU, dirigiu-se para a câmara e disse, com voz embargada, “O Brasil precisa de Pessoa de Moraes”. Dia seguinte, não resisti e lhe passei telegrama (naquele tempo não havia internet) dizendo: “Escusas, amigo, mas o Brasil precisa mesmo é de pessoas de moral”. Brigou comigo. Por três dias. Saudades dele. Saudades de um tempo em que, aproveitando título do manifesto de outro Pessoa, o Fernando, se brigava Por causa da moral.

Pensei nessa historinha ao ler, nesta semana, os jornais italianos. Com notícias sobre uma Operazione Labirinto, movida pelo Ministério Público (Guardia di Finanza) de lá. Sim, amigo leitor, não é só por aqui que operações policiais ganham nomes sugestivos. Com esse Labirinto, no caso, se referindo às catacumbas da Roma antiga, que confundiam quem caminhasse por elas.

Nessa operação foram presos 12 políticos e empresários. Em custodia cautelare, equivalente a nossa prisão temporária. E mais 12 estão em domiciliari. Sem tornozeleiras eletrônicas. Mas vedado, a esses, exercer qualquer atividade profissional. Não é casa só de pernoitar. É para ficar dentro dela. Sem poder sair. Nem mesmo para ir a missa – como se deu, semana passada, com presos libertados por Tofolli. Aqui para nós, duvido muito das orações de católicos que nunca tiveram vergonha em desrespeitar o sétimo mandamento (“não roubarás”). Mas essa é outra história. 

Engraçado é que, na Itália, se dizia que só o fim do financiamento privado das eleições acabaria o caixa 2 dos partidos. Mesmo discurso daqui. Razão pela qual a Legge 659/1981 adotou o tal finanziamento publico. Copiando o único país do mundo que tem essa regra – a Alemanha, com sua Parteingesetz de 1967. Só que a corrupção não diminuiu. Ao contrário. Tanto que, entre 1992 e 1996, se deu a operação Mani Polite. Conduzida pelo juiz Antonio di Pietro. Com 6.059 pessoas investigadas e 3.292 presos. De muitas procedências: 633 de Nápoles, 623 de Milão, 444 de Roma, por aí. Dos quais 1978 eram administradores locais (equivalentes, no Brasil, a Prefeitos), 872 empresários, 438 parlamentares e 4 ex-Primeiros Ministros. 

Aplicada a proporção, em relação à população da Itália, isso corresponderia no Brasil a cerca de 6.000 presos. Sérgio Moro, até hoje, condenou apenas 107. Falta muita gente, ainda. Sobretudo graúdos. Por conta dessa operação, o Decreto Legge 149/2013 aboliu dito financiamento público. Só mesmo rindo. Nossos profetas de ocasião, que defendem a tese no Brasil, são mesmo cegos para os desvãos da natureza humana.

Com o fim dessa operação “Mãos Limpas”, na Itália, esperava-se que as novas gerações tivessem aprendido a lição. Deu em nada, já se vê. Incorrigíveis otimistas, continuamos esperando que mudem os políticos brasileiros. Sendo cada vez mais necessário que pessoas de moral, como foi Pessoa de Moraes, comecem a se interessar pela vida pública. Quase impossível, bem sei. Mas como dizia Jorge Amado, pela boca de Quincas Berro d’Água, “impossível não há”.


Fonte: Diário de Pernambuco

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