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Luciana Grassano Melo: Melhor não ir ao encontro

Por Luciana Grassano Melo

Professora de direito da UFPE

Só consigo pensar nos mortos! Foi o que respondi com um olhar cheio de espanto e esperança. Me perguntavam sobre que escritor eu gostaria de escutar falar numa mesa de debates literários. Eu tinha muitos nomes, mas todos mortos. Até ri, lembrando da brincadeira do copo que fazíamos na época do colégio, para atrair os espíritos para a sala de aula. 

Frequento sempre as feiras literárias. E na maioria das vezes é bom escutar a fala dos autores cujos livros já li. É certo que em muitas ocasiões o debate não flui bem, ora por culpa da mesa, ora por culpa da plateia. Mas costuma ser um programa que me agrada. Mas a verdade é que não me veio um único nome à mente para responder à pergunta que me foi feita. Digo, nenhum nome possível fora da ideia da brincadeira do copo. Todos mortos!

Isso me intrigou bastante. É certo que sempre que saio desses debates literários tenho a impressão de que a conversa que tive com o livro que li me disse muito mais que o breve diálogo que firmei com o autor, acerca de uma questão ainda mal resolvida em minha cabeça. Ou seja, para além da curiosidade de ver a figura, de ter o livro autografado e de firmar um contato mais próximo com o escritor, essencialmente eles não têm muito mais a falar além do que já nos disse a sua obra. Na minha opinião, só poderá falar algo diferente se for relido, em um outro momento de nossa vida.

Mas como não querer escutar Tolstoi, Hemingway, Jorge Luis Borges falarem? No meu caso, como não querer topar com Fernando Pessoa ou Clarice Lispector na sala de uma feira literária? Ainda assim, francamente, acho difícil que falassem tão bem de seus livros como as memórias que guardo das conversas que tive com O Guardador de Rebanhos ou A Hora da Estrela. 

Os bons livros são sempre melhores que seus escritores porque os escritores não são iguais ao que escrevem, se escrevem ficção. O seu instrumento de inspiração é a imaginação, muitas vezes mesmo o fingimento, daí porque Fernando Pessoa em um de seus poemas diz: “Depois de escrever, leio…/ Por que escrevi isto? / Onde fui buscar isto? / De onde me veio isto? / Isto é melhor do que eu…”

Rubem Alves também já nos alertou: “Não escrevo o que sou. Escrevo o que não sou. Sou pedra. Escrevo pássaro. Sou tristeza. Escrevo alegria. A poesia é sempre o reverso das coisas. Não se trata de mentira. É que nós somos corpos dilacerados – “Oh! Pedaço arrancado de mim!” Depois de refletir bastante, compreendi que só tinha pensado nos mortos porque, na verdade, intimamente, não queria o encontro. Preferia ficar apenas com o texto a correr o risco de concluir, como Fernando Pessoa, no Livro do Desassossego: “G. Junqueiro? Tenho uma grande indiferença pela obra dele. Já o vi…  Nunca pude admirar um poeta que me foi possível ver.”


Fonte: Diário de Pernambuco

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