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Luciana Grassano Melo: O realismo fantástico do golpe

Por Luciana Grassano Melo
Professora de Direito da UFPE

Parece que estou vivendo dentro de uma novela do realismo mágico. Um romance pensado pela imaginação de um grande escritor, do top de Gabriel García-Márquez, Julio Cortázar ou Manuel Scorza, todos grandes mestres da escola da literatura fantástica latino-americana.

O realismo mágico se define por uma preocupação estilística de dar um sentido de verdade ao que é fantástico e irreal, procurando mostrar o estranho como algo cotidiano e comum. Não é mesmo fantástico e irreal que em pleno século XXI o Brasil tenha um presidente interino que se comunica por meio de mesóclises e é casado com uma princesa bela, recatada e do lar?

Não é mesmo estranho que uma sociedade e suas instituições que se dizem tão contrárias à corrupção tenham afastado do cargo uma presidenta eleita e honesta para colocar em seu lugar um interino sem votos e ficha-suja? Um claro enredo fantástico, onde tudo o que é real é muito improvável que aconteça, como deputados batendo panela, invocando ao mesmo tempo Deus e torturador e votando em honra da família, enquanto se distraem marcando encontro com as amantes pelo whatsapp.

Nunca vivi uma outra história com tantos elementos intuitivos, nunca explicados. Vejam só a intuição do ministro do STF que recebeu um pedido de afastamento do Eduardo Cunha em dezembro, e deixou para decidi-lo em maio, depois de consumado o processo de impeachment na Câmara de Deputados.

Também se percebe uma presença forte de elementos sensoriais como parte da percepção da realidade, o que é próprio da boa literatura fantástica, como as panelas soadas na varanda (e agora surpreendentemente caladas), a ostensividade desnecessária à nossa vista das operações policiais, as falas íntimas da presidenta Dilma gravadas e divulgadas por um juiz que, só por isso, já devia ter sido pelo menos aposentado compulsoriamente, mas que continua se achando no direito de processar e julgar o ex-presidente Lula, a despeito de sua inquestionável parcialidade. Tudo isso é sem dúvida muito fantástico!

Mas digo que, para mim, um dos aspectos mais fantásticos de todos foi o STF suspender a nomeação de Lula como ministro da Casa Civil pela presidenta Dilma, e perceber como uma certa “normalidade” a presença de sete ministros citados pela Lava Jato, além do próprio presidente interino, na formação do novo governo.


Fonte: Diário de Pernambuco

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