Marly Mota: Grêmio Lítero Musical Bonjardinense

Por Marly Mota
Escritora

Neste inverno, os fortes ventos assoviam, entrando pelas janelas de onde vejo o Capibaribe carregado de baronesas, contornando o bairro de Casa Forte. Refugio-me do outro lado da memória, nas íntimas paisagens das serras, por onde corre o Tracunhaém, margeando as encostas da cidade de Bom Jardim. Nesta crônica, modestamente homenageio o amigo, músico e compositor Bráulio Gomes de Castro. Entre os muitos conterrâneos, ele e eu, somos dessa cidade musical, de fatos reais, fictícios, sociológicos, de usos e de costumes populares da minha convivência, até os meus bens vividos dezesseis anos de idade quando nos mudamos para o Recife. Em Bom Jardim, morávamos na Praça Barão de Lucena, a pouca distância da Igreja Matriz de Santana, e do Senhor Ademário Gomes de Castro, fundador, no ano de 1932, do Grêmio Lítero Musical bomjardinense. Amigo e colaborador do velho vigário João Pacífico.

Na sacristia batia o sino em chamadas para as missas às horas do dia, às visitas do bispo da diocese. Contribuía na confecção de hóstias para a comunhão dos fiéis quando à sua porta os meninos da vizinhança se regalavam pedindo as sobras.  O seu neto Bráulio, quando pequeno, com os seus pais José Dácio Gomes de Castro e Maria das Neves (Das Neves), amigos dos meus pais, guardou lembranças da nossa casa, do jasmineiro em flor, das gaiolas com passarinhos, do papagaio, de um bolo “maravilhoso” e alfenins que a nossa ama Sá Ana lhe servia.

Por essa época à noite, os moradores das casas, velhos e meninos, prolongavam suas conversas com cadeiras nas calçadas. Eu, nessa roda, ouvia a música nos ensaios do “Grêmio.” Grandes nomes de músicos, compositores e regentes de orquestras passaram pelo Grêmio Lítero Musical bomjardinense, entre eles, Livino Ferreira, Mestre Vivo, assim ficou sendo chamado por ter tido um ataque de catalepsia, quase sendo enterrado vivo. O popular Zumba, José Gonçalves Junior, radicado em Bom Jardim, maestro e compositor dos melhores frevos. O Mestre Teté regeu a famosa Banda 22 de setembro, conhecido “Caldeirão.” Dinamérico Sedícias (Diná), com seu clarinete, tocava os sucessos de Cole Porter e Glenn Mille. O brilhante Dimas Sedícias, menino dos “sete instrumentos”.  

Depois de alguns anos , em 1999, fui convidada a fazer uma palestra no Centro de Cultura de Bom Jardim pelos 118 anos de emancipação política do município. Nessa tarde recebi notícias de Bráulio Gomes de Castro. Em pleno sucesso, dedicou-me com Fátima Castro música e letra em CD , cantando e encantando. Com almoço regional recebi o casal, ao lado da minha família e amigos, em tarde alegre e musical para coroar a brilhante atuação do cidadão Bráulio Gomes de Castro com o meritíssimo título de Cidadão de Olinda, da Casa Bernardo Vieira de Melo. Entre amigos da caravana de conterrâneos, o poeta Dodd Felix destacou a festa na sua coluna do Jornal do Agreste. Na noite de 18 de maio deste ano, em clima carnavalesco, o Bloco “Quero Mais animou a concorrida festa do agora cidadão olindense, da “Lendária Olinda, Cidade Eterna”, de  Capiba e de todos nós.


Fonte: Diário de Pernambuco

Deixe seu comentário

Comentários via Facebook