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Maurício Rands: Os Atentados na França e a Negação do Iluminismo

Por Maurício Rands 

PhD pela Universidade de Oxford, advogado e professor de Direito da UFPE

randsmauricio@gmail.com

Vítima de três grandes atentados em apenas dois anos (Charlie Hebdo, Bataclan e Nice), a França e o mundo se perguntam: por que a França? Por que a vida e a liberdade estão sendo atacadas justamente em um país em que se fincaram tão fortes os valores do Iluminismo? 

Aqueles valores remontam à filosofia de Kant (1724-1804), construída em torno da ideia de que os seres humanos, por serem racionais, possuem uma dignidade intrínseca. Daí decorre seu famoso imperativo categórico, apresentado sob duas fórmulas. A primeira, a da lei universal: ‘aja sempre de acordo com um princípio em que você possa ao mesmo tempo almejar que ele se torne um princípio universal’. A segunda, a da humanidade como um fim em si: ‘aja de tal modo que você sempre trate a humanidade, seja em sua própria pessoa ou na pessoa de outrem, nunca apenas como um meio, mas sempre ao mesmo tempo como um fim’. Esses valores estão sendo tencionados ao limite diante da crise migratória. Países como a França têm instituições republicanas que neles se alicerçam.

Mas, para uma parte dos seus habitantes, a promessa de liberdade, igualdade e fraternidade nunca se materializou. Os imigrantes sentem a todo instante o peso da exclusão e da discriminação. O crescimento da extrema-direita xenófoba de Marie Le Pen explicita atitudes que antes permaneciam disfarçadas. E o imigrante sente-as porque permanece confinado aos banlieues e ao desemprego. Sem ter sido integrado na sociedade francesa, experimenta, na prática, a negação dos valores que inspiram o Estado democrático e laico fundado sob a promessa iluminista. Percebe que a sua exclusão decorre de práticas que não se poderiam ‘universalizar’. Sente que o Estado e a sociedade francesa não os consideram como seres humanos que deveriam ser ‘kantianamente’ um ‘fim em si’. É nesse quadro que jihadistas como o notório Omar Omsen encontram ambiente para recrutar uma juventude susceptível à radicalização islâmica. Nice, em particular, abriga uma grande população muçulmana não integrada de onde recentemente 55 de seus moradores partiram para guerrear na Síria. 

O estado de emergência introduzido depois do ataque da Bataclan iria expirar neste mês de julho. Depois do ataque de Nice foi estendido até 26 de outubro. Isso não vai eliminar o risco de novos ataques. O desafio para os franceses será o de integrar de verdade os imigrantes, respeitando sua religião. Será garantir-lhe o tratamento prometido pelo Iluminismo. Mas o mundo também precisa repartir melhor as responsabilidades de receber os imigrantes vítimas de crises humanitárias. A começar pelos EUA, outro Estado fundado em valores que hoje ainda são negados a muitos dos seus habitantes. Basta ver a receptividade de parte de seu eleitorado aos apelos xenófobos de Donald Trump.


Fonte: Diário de Pernambuco

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