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Maurício Rands: Os marqueteiros e a pobreza da política

Por Maurício Rands
Advogado, PhD pela Universidade de Oxford e professor de Direito da UFPE

Lembro-me de um primeiro incômodo que senti depois de eleito deputado federal em 2002 na esteira de um grande movimento de esperanças despertadas pela eleição do primeiro presidente saído genuinamente dos movimentos sociais. Reunião em São Paulo entre o 1º e o 2º turno. Convidados todos os deputados eleitos pela bancada do PT para reunião com Lula e para gravar cenas para o guia eleitoral do 2º turno. Clima de festa e de mobilização, todos conscientes de estarem vivendo um momento histórico.

Eis que o marqueteiro daquela campanha, Duda Mendonça, comparece ao palco se sentindo quase tão responsável pela vitória quanto o candidato. Os milhares de militantes anônimos que tinham viabilizado a vitória, esses não passavam de figurantes. Como os parlamentares que haviam sido eleitos por conta de longos anos de militância nas mais diversas causas sociais. As estrelas eram Lula e o marqueteiro. Este assumia ares de grande responsável pela vitória, ele que tinha inventado o “Lulinha Paz e Amor”. Quem não se lembra?

Doze anos depois, um outro mago comemora uma eleição presidencial quase como se tivesse sido a candidata. Acabara de empacotar uma postulante inexpressiva, embalá-la como grande gestora e condutora de um governo que estaria redimindo todas as injustiças sociais. Mais que isso. Vendera a ideia de um Brasil cor de rosa mesmo quando já se sabia a profundidade do abismo causado pela má gestão econômica e política do primeiro mandato. Colocara na conta dos adversários as “malévolas” intenções de subtrair o pão da mesa do trabalhador para satisfazer o apetite dos banqueiros. Conduziu um estelionato eleitoral que logo depois foi desnudado com as primeiras medidas do 2º mandato. Mas, praticando o mantra da política conservadora tradicional, agia imaginando que “em política, tudo vale, o feio é perder.

Perderam feio, o marqueteiro, sua esposa e a esperta candidata. Perderam mais, todavia, as vítimas: os 11 milhões de desempregados. Logo na 1ª esquina da História. A falsa propaganda foi desnudada porque a crise não podia mais ser jogada debaixo do tapete. Mas a pose não perderam. Os sorrisos do marqueteiro e de sua esposa no dia em que foram presos quase que falavam aos telespectadores: “besteira, ficaremos uns diazinhos de molho, mas logo depois estaremos por aí novamente; não sabem esses ingênuos o que podem fazer as dezenas de milhões de dólares que recebemos das campanhas…” Agora, nos depoimentos das delações, voltam-se contra a cliente que lhe mandara os milhões para as contas no exterior. “Farinha pouca, meu pirão primeiro”.

Essas duas efemérides dão conta da doença terminal a que chegou o atual sistema político. As campanhas deixaram de ser conduzidas pelos partidos e candidatos, com base em programas. “Programa? Não lanço o meu e fico livre para deformar e demonizar o dos outros candidatos”. Como na cena do banqueiro tirando o pão da mesa do trabalhador. É a morte da política, aquela que, quando genuína, é a atividade mais nobre da aventura humana porque é voltada ao bem comum e capaz de transcender os interesses meramente individuais.


Fonte: Diário de Pernambuco

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