Maurício Rands: Pelópidas, Armando Monteiro e Carlos Garcia

Por Maurício Rands
PhD pela Universidade de Oxford, advogado e professor de Direito da UFPE

No último dia 5, o público leitor foi brindado pela Cia Editora de PE (Cepe) com um tríplice lançamento. A iniciativa de seu presidente, Ricardo Leitão, desafiou os jornalistas Evaldo Costa, Aquiles Lopes, Mário Hélio e Homero Fonseca a se debruçarem sobre nossa história recente à luz de três grandes personagens: Pelópidas Silveira, Armando Monteiro Filho e Carlos Garcia. Pernambuco tem uma história política muito densa, mas ainda se ressente de uma bibliografia mais abundante sobre seus eventos e personagens. Os três livros realçam a influência do ambiente histórico na conformação da personalidade desses três grandes pernambucanos.

Pelópidas é mais lembrado por seus atributos de político, gestor e grande urbanizador do Recife. Mas quero relembrar seu bom humor e ironia fina com uma das histórias narradas no livro. A título de “degustação”. Ele, que foi três vezes prefeito do Recife e  o primeiro prefeito eleito pelo voto popular (em 1955), exercia um desses mandatos quando foi instado por um deputado para que recebesse três candidatos a uma “colocação”. Entrevistando-os, recebeu as negativas sobre se sabiam datilografar, dirigir, se tinham o ginasial ou se tinham experiência de trabalho. Ao final, perguntou se eles sabiam nadar. Um deles respondeu que sabia. O outro que não. Então, ele respondeu ao deputado que os entrevistara pessoalmente, mas que não os podia empregar. “Um dos rapazes…, nada. O outro, nem isso, nem nada!”

A degustação sobre Armando vai pairar sobre sua coerente vida pública de ministro da Agricultura do gabinete parlamentarista de Tancredo Neves, sobre o projeto de reforma agrária por ele avançado apesar de ser um filho da aristocracia açucareira, e sobre a coerência democrática com que optou por se perfilhar ao lado dos derrotados de 1964 ou, depois, sobre seu apoio às candidaturas presidenciais de um líder operário. Reunião da Sudene, quando ele tinha 36 anos e João Goulart 41. Depois de ouvir o discurso de Gilberto Freyre contra o culto aos moços, Armando disse-lhe, na despedida: “Dr. Gilberto, desculpe-me por eu ser moço…”.

Sobre o jornalista Carlos Garcia, pinço um episódio que dá a medida de seu compromisso com o fato objetivo da notícia e a habilidade para conseguir ofertá-la. Mesmo ainda sob a ditadura que já o havia torturado. Em 15/09/1977, o DA da Faculdade de Direito do Recife convidara Marcos Freire, Teotônio Vilela e Paulo Brossard para debate. O diretor Rosa e Silva proibira-o e esvaziara a faculdade. Os estudantes levaram o evento para o DCE, na Rua do Hospício. Garcia, então chefe da sucursal do Estadão, trabalhara suas fontes e soubera que haveria repressão. Avisou o repórter Paulo Cunha para que cobrisse tudo. Garcia apurou que os senadores, depois, iriam jantar em Olinda. Instruiu o repórter a colar neles e fazer a matéria completa: a da repressão no DCE e a reação dos senadores. Tendo reservado o espaço até o fechamento da edição em São Paulo, obteve autorização para que o repórter ditasse diretamente no telex o texto da matéria bombástica e, assim, completa.

Estamos diante de obras que vão estimular um maior conhecimento de nossa história e personagens. Luzes sobre personagens que fizeram de Pernambuco esse torrão altivo e orgulhoso dos seus personagens, mesmo empobrecido. Essas leituras têm o dom de nos ajudar a entender por que os pernambucanos estão sempre presentes nas galerias dos artífices da História do Brasil em qualquer área que se examine.


Fonte: Diário de Pernambuco

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