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Nagib Jorge Neto: A febre endêmica

Por Nagib Jorge Neto 

Jornalista

No princípio havia o verbo, depois o verbo ignorou seu passado, história e arte, ficou mutante, uma espécie de quase deus, abstrato e ilusório. Então habitou entre nós, como uma metamorfose ambulante, dominando encontros, conversas, momentos de afeto, carinho, ou instantes de ira, indignação. Nunca antes, no século passado, o futuro pareceu tão animador, próximo, com avanços na tecnologia, ciência, relações pessoais e de trabalho, saúde e bem estar.. 

Tais esperanças – marcantes também no século XIX – não se tornaram concretas neste século com práticas avançadas na economia, na política e na convivência social. Assim, a modernidade fez crescer o tumor benigno ou maligno do processo de desenvolvimento, com desemprego e maior pobreza, guerras, destruição e morte, sobretudo na África e no Oriente Médio, atenuadas pelo avanço do deslumbre com a interação virtual. . 

As críticas foram poucas – amenizadas pela ilusão de debate – mas logo cederam espaço a temas mais amenos ou supostamente críticos – mensagens, postagens de fotos pessoais ou de grupos, denúncias curtas, reais ou inventadas que hoje ocupam páginas e páginas do facebook, instagram, do twitter e de blogues. É uma tentativa de suprir a carência de mensagem, comunicação, participação, na verdade uma variante das colunas sociais de jornais e revistas, que são vistas em celulares, tablets, iphones, smartphones, quase sempre com pessoas que embutem nas postagens expressão de beleza, alegria, felicidade – raros os casos de indignação ou convivência – de sorte a se contentarem com elogios, curtições, citações, confirmando suas expectativas.

Daí a febre amena aumentou de tal forma que a epidemia passou a ser uma endemia e cresce em ritmo veloz, tornando as conversas, reuniões, almoços, momentos em bares e trabalhos em mero espaço para consultas de postagens, comentários, com quase todas as pessoas teclando ou olhando pra ver se foram ou serão lembradas. 

Mais ou menos bíblico como no Eclesiastes – vaidade das vaidades – com a agravante da carência de afeto, graça, sexo ou amor, que se tenta compensar com o virtual, aparição e louvação. Essa endemia, pois, tira as pessoas da vivência com os problemas reais, carências, princípios, concepção de sociedade e de mundo que é vital para a nação. Tal quadro, portanto, de primado do virtual, produto da nova mídia, na visão de Noam Chomsky “é moldado para atender as necessidades de poder e dominação nos quais se embute, gerando o risco de transformar o público em átomos isolados de consumo, passivos e obedientes”. De resto, alienadas ou sem tempo para conversas ao vivo, discussões, debates, instantes de prazer e amor, tendem a crer que o virtual é real, fantasia exata de um novo tempo…


Fonte: Diário de Pernambuco

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