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O Penta de 2002 foi espetacular, mas o que aconteceu para o abismo sem títulos mundiais depois?

O Brasil celebra, nesta quinta-feira (30), o aniversário de seu último título mundial. De lá para cá, muita coisa deu errada para a Seleção


GOAL Por Tauan Ambrosio 


Há 14 anos o Brasil conquistava, no Japão, o seu quinto título mundial. E último, até o presente momento. O cenário desenhado antes do início da competição era, de certa forma, parecido com o atual: não eram poucos os que acreditavam que o nosso país vivia a sua mais grave crise técnica. Quando assumiu o comando, Felipão era visto como o ‘Salvador da Patria’. Só que os primeiros resultados não lhe ajudaram em nada.

Principalmente a eliminação para a fragilíssima seleção de Honduras, na Copa América. A impressão era de fundo do poço, de um vexame que jamais seria igualado. Na convocação final, Felipão peitou o clamor de todo o país ao deixar Romário de fora. Ronaldo, que dois anos antes havia rompido completamente o tendão patelar, já não parecia mais o mesmo. Rivaldo também sofreu com uma lesão no joelho… e a seis meses da Copa! Scolari bancou a ida de ambos para a Ásia.

Após o Penta, a única dúvida sobre Rivaldo e Ronaldo é: quem foi o melhor do torneio?(Foto: Getty Images)

No final das contas, tudo deu certo. A equipe recebeu os seus últimos ajustes no meio da competição, com a entrada de Kléberson para dar estabilidade maior ao meio. Depois de vencer a Alemanha na decisão, a chamada “Família Scolari” estufou o peito para falar em alto e bom som os seus números: desde que o Mundial passou a contar com um total de 7 partidas máximas a serem disputadas, nenhum campeão havia vencido todos os compromissos.

O 3-4-2-1 montado por Felipão ajudou a criar o equlíbrio necessário entre defesa e ataque

A geração, criticada antes de levantar o troféu, se mostraria espetacular. Com grande destaque para os laterais Cafu e Roberto Carlos, mais liberados para os avanços no incomum 3-4-2-1 montado por Felipão, pelos espetaculares meias Ronaldinho Gaúcho e Rivaldo. E, claro, Ronaldo, herói na final ao balançar duas vezes as redes do goleiraço Oliver Khan – que naquele dia 30 de junho fez uma partida para se esquecer.

O Brasil era penta com o melhor ataque (19 gols) e levando apenas quatro gols.

Uma palavra que pode muito bem definir aquela equipe é equilíbrio. Jogava com três zagueiros? Sim, mas dava o suporte para o meio de campo e ataque se soltarem. E ficar livre para criar é tudo o que um boleiro habilidoso sonha. A Seleção de 2002 contava com vários craques, mas todos absolutamente compromissados com a camisa canarinho. Eles tinham algo a provar, e conseguiram.

O abismo após o penta: qual é o motivo?

(Foto: VANDERLEI ALMEIDA/Getty Images)

Atualmente, o Brasil se prepara visando a disputa do Mundial de 2018. Se não levantar a taça na Rússia, vai emplacar a quarta participação sem conquistas – primeiro, precisa se classificar. É lógico que um torneio que reúne os melhores selecionados do mundo não é fácil de se ganhar. Afinal de contas é o suprassumo do futebol. Mas o que explica a atual seca de títulos na Copa do Mundo?

Primeiro, vamos voltar à década de 1970. Depois do Tri, a Seleção ficou na quarta posição com um elenco bom, porém envelhecido. Em 1978, houve a entressafra que antecedeu uma das maiores seleções de todas. Só que assim como a Hungria de Puskas ou a Holanda de Cruyff, o Brasil treinado por Telê Santana entrou na história como o time que encantou sem ganhar. O Mundial de 1986, disputado no México, aproveitou boa parte da estrutura de 1982. Não encantou tanto, e também caiu.


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A avaliação geral era de que o futebol havia mudado como esporte, e embora a Seleção ainda contasse com grandes craques precisava se atualizar. E buscar a mistura ideal entre o jogador técnico e físico. Em 1990, o Escrete Canarinho dava mostras de que começava a iniciar tal processo. Só que não encantou, não ganhou e não jogou bem. Em 1994 o título veio com um estilo de jogo bastante criticado, e o tempero de encanto ficou apenas em Romário.

2006: Muita habilidade, muitos craques, muita confiança, muita festa… pouco compromisso (Foto: Getty Images)

Voltemos para os anos mais recentes. Em 2006 o Brasil tinha os melhores jogadores do mundo, o clima geral era de ânimo e confiança no jogo bonito. Até mesmo a empresa que fabrica a camisa estampou tal frase no uniforme. Só que naquele certame disputado na Alemanha, foi notada uma falta de compromisso como há muito tempo não se via. Parte considerável dos jogadores só queria festejar e brindar. Anos depois, tal postura seria confirmada em relatos de atletas que estiveram lá. Sobrava talento, faltava compromisso.

2010: Pouca habilidade, muito compromisso… nenhum encanto (Foto: Getty Images)

Como forma de remediar todo o clima de festa, o ciclo até o Mundial de 2010 foi absolutamente o oposto. Nada de festas, nada de gracinhas. Compromisso máximo. Era a primeira passagem de Dunga na Seleção Brasileira. Um time competitivo – como todas as seleções tupiniquins -, mas sem nenhum toque de brilho. Muito compromisso, futebol feio, sem encantar.

Para 2014, a ordem era ‘vingar’ o Maracanazo. A derrota de 1950 era taxada por alguns como vergonha até hoje. O passado parecia estar tão presente, que Luiz Felipe Scolari era mais uma vez treinador. Só que ao contrário de 2002, os seus anos anteriores não apresentavam muitos bons momentos (exceção feita ao período em Portugal). O Brasil tinha jogadores mais habilidosos, daqueles que flertam com o protagonismo nos palcos europeus com belos lances e gols.

2014: Pouco planejamento, fé excessiva em um único jogador (Foto: Getty Images)

Só que houve um relaxamento excessivo. Era como se misturássemos um pouco do clima festeiro de 2006 com um pouquinho do compromisso de 2010. Dentro de campo, um selecionado sem padrão. Como se fosse fazer uma prova importante sem ter estudado nada. Os brilhos repentinos ficaram com um só jogador: Neymar. Só que o craque se machucou nas quartas de final e não poderia mais entrar em campo.

(Foto: Getty Images)

Veio a semifinal contra a Alemanha, e uma lição em vários aspectos: tática, técnica, organizacional… e até de humildade. Afinal de contas os germânicos eram considerados o time mais carismático da competição disputada em solo brasileiro. Placar: 7 a 1 e uma nova marca, daquelas que ninguém quer: a maior vergonha da história de uma grande seleção.

A chegada de Tite é aprovada pela grande maioria (Foto: VANDERLEI ALMEIDA/AFP/Getty Images)

Hoje, o que parece faltar é um pouco do ‘ter o que provar’ de 2002. E com vontade de fazer isso, é claro. Mas também veio faltando planejamento, seriedade (inclusive institucional, já que os presidentes da CBF pularam da editoria de esportes para a policial) e aplicação de um futebol que seja, ao mesmo tempo, moderno e encantador. O comando agora está com Tite, um treinador que nos últimos anos mostrou seriedade, planejamento e futebol aplicado. Falta saber se desta vez a fórmula vai dar certo, para o equilíbrio vencedor voltar a aparecer.


Fonte: Goal.com

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