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Opinião: Brexit, recomposição da ordem mundial?

O plebiscito determinou o Brexit, contração das palavras Br (britânica) + Exit (saída) da União Europeia – UE, motivado por: i) imigrantes como ameaça aos empregos, benefícios sociais e ao sistema de saúde britânico; ii) onda de refugiados, como risco de terrorismo. Legítimo ato soberano e democrático de autonomia de vontade política do povo britânico, da maioria silenciosa e do cidadão comum, chancelou proposta de desfiliação da confederação de países e rompimento com seu bloco econômico. Surpreendente decisão de realpolitik, pois Dieu et mon droit, reafirma lema da Inglaterra, a velha Albion. Contrariou massiva opinião de lideranças políticas e econômicas internacionalistas, desafiou grandes capitais globais e frustrou expectativas de diversas mídias, contrários ao Brexit. O resultado espelhou grande insatisfação dos britânicos, tradicionalmente eurocéticos, frente a certos descaminhos governativos da UE, que ameaçavam necessidades, interesses e aspirações, diante do seu futuro histórico comum de permanência, identidade nacional, qualidade de vida e segurança coletiva. Vai significar também, um freio de arrumação no estilo de vida na Grã-Bretanha, onde vão se coser com suas próprias linhas. A decisão, considerou os grandes problemas acumulados na UE, conforme relatos: 1) dificuldades econômicas pendentes da grande crise econômica de 2009 na UE, de baixo crescimento, expressivo desemprego entre os mais jovens e risco de crise financeiro-bancária; 2) falta de direção política mais assertiva na UE, com desproporcional tamanho, de custosa e complicadora burocracia comunitária; 3) redução de soberanias locais, na concentração econômica e centralização política nas cúpulas da UE, esvaziando recursos de muitas comunidades, remanejados para outras áreas, que decretam sua periferização; 4) crise de lideranças e exaustão dos sistemas políticos internos nos países membros em crises de representatividade; 5) falta de doutrina de procedimentos comuns de manejo e de segurança coletiva nas recentes invasões migratórias; 6) sentimento de ameaças na manutenção do sistema de bem-estar social europeu; e, 7) percepção de dificuldades futuras numa UE centrípeta, em momento identitário de ressurgências nacionalistas, regionalistas e antiglobalitárias. O plebiscito britânico sinaliza atuais fragilidades de grandes superestruturas ou organizações supranacionais como a UE. Tornam-se monstros perdulários, burocracias custosas, promovem abusos legiferantes de controles difusos, resultados questionáveis, distanciam-se do público-alvo, cidadãos nacionais e locais. Quando organizações se transformam de meios para fins, acumulam disfuncionalidades, camuflam inconsistências, agravam incompatibilidades entre seus membros, perdem legitimidade e fazem ressurgir atavismos. Conforme dito popular, Mateus, primeiro os meus, depois os teus! O plebiscito, pode influenciar redefinição geopolítica global e gerar semelhantes movimentos na Europa e resto do mundo, efeito dominó viral. Será choque de civilizações, numa recomposição da ordem mundial, em ciclo centrífugo? Administrar diretamente recursos locais, sub-nacionais ou nacionais, nesta conjuntura, pode ser mais racional e mais efetivo, onde o menos é mais. Pode agregar homogeneidade, mais empoderamento local, mais controle social (accountability) e melhor governança territorial. O Brexit questiona crença baseada na governança supraestatal da globalização, que pudesse superar rivalidades étnicas, religiosas e culturais seculares. O Brexit manifesta o senso de sobrevivência nacional de governança autônoma e mais direta para o bem-estar e segurança coletiva dos seus nacionais, mais próxima dos cidadãos. No Brasil, aviso aos navegantes do poder, por semelhantes motivos do Brexit entre outros, temos perversa concentração e centralização político-econômica, dissolução do Pacto Federativo, erosão das elites dirigentes, criminoso desmonte institucional e financeiro recém-produzido pela massiva corrupção no Estado brasileiro e ausência de um projeto nacional. Fragilizados nesta complexa conjuntura nacional, de exaustão fiscal do Estado, difusa legitimidade política, crise de lideranças, fraca governança e baixa governabilidade, pode nos vulnerabilizar a fraturas internas, que ameacem a unidade nacional. Aguardemos os desdobramentos. Cor unum et anima una pro brasilia!

George Emílio Bastos Gonçalves
Economista, professor e membro do Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico Pernambucano – IAHGP


Fonte: Diário de Pernambuco

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