Questão de pele

Acontece todos os anos. Basta a ESPN anunciar uma prévia de seu “Body Issue” (algo como edição do corpo, em inglês) para a internet brasileira ser inundada por notícias sobre as musas do esporte e corpos sarados nus nas páginas da revista.

Sim, a edição está sempre cheia de gente pelada. É essa a ideia. Mostrar a beleza de um corpo atlético. A intenção, no entanto, não é explorar a barriga sarada ou um bumbum durinho. Nas páginas da revista há atletas “gordinhos”, magrelos demais, exemplos de diferentes tipos de corpos que são necessários para diversos tipos de esporte.

Mas não é só isso.

Ao tirar a roupa, os atletas se expõem por inteiro. Se abrem sobre temas que são pouco explorados no dia a dia. Um lindo ensaio de corpos atléticos é também a desculpa perfeita para explorar tabus, informar, contar boas histórias.

Visão que a mídia do Brasil —e talvez também seu público—, mesmo em um país acostumado aos corpos expostos por aí, não consegue criar. Por aqui, ainda ganha mais atenção o apelo sexualizado.

Em oito anos, a revista norte-americana discutiu as mudanças que cada modalidade provoca nos corpos dos atletas, falou de menstruação, discutiu o assédio sexual, explorou as conversas de vestiários, guardadas a sete chaves por atletas e técnicos.

Agora, atletas que posaram falam sobre a insegurança com seus corpos. Dwyane Wade, astro da NBA, tinha vergonha de mostrar o corpo na infância e só nadava de camiseta. E isso o ajudou a aceitar a proposta de ficar pelado na revista.

“É maior do que mostrar meu corpo. [Aparecer nu] Não é mais importante para mim do que falar sobre a superação do medo. Espero que isso ajude as pessoas a terem confiança de ser quem elas são.”

Vince Wilfork, jogador de futebol americano, também topou tirar a roupa e mostrar o corpanzil de quase 150 kg. Não para mostrar uma barriga sarada.

“Sei que eu não tenho um tanquinho, mas tudo bem. Se as pessoas olharem para mim e virem que um cara desse tamanho pode fazer tudo que eu faço, tenho certeza de que ficarão tranquilos em ser quem eles são”, afirmou o jogador.

Há espaço também para a diversidade. Chris Mosier, atleta de biatlo, está ali mostrando o corpo que conquistou após 29 anos. Ele nasceu mulher e se tornou o primeiro transgênero a entrar para a seleção americana do gênero com o qual se identifica, não daquele que aparece em sua certidão de nascimento.

É a primeira vez que um transgênero aparece. Acompanhando a decisão do Comitê Olímpico Internacional de aceitar essas pessoas no esporte, sem barreiras.

Greg Louganis, aos 56 anos, também aceitou tirar a roupa. O ex-saltador ornamental exibe as marcas da passagem do tempo em seu corpo. O esporte não é só feito de corpos jovens. E fala sobre como a descoberta do HIV o levou a fazer escolhas mais saudáveis na vida.

São questões ligadas ao esporte? Sim, mas também ligadas à vida de qualquer um. Muitos têm insegurança com seus corpos, sentem o peso do tempo, sofrem para se afirmar. São temas que deveriam ser mais discutidos. E o esporte é uma excelente ferramenta para isso. Legado olímpico também pode ser cultura esportiva, aprender a apreciar e explorar esses temas. Um atleta pelado não é só apelo sexual.


Fonte: Folha.com.br

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