Raimundo Carrero: Edney Silvestre revolve a comédia humana em contos exemplares

Por Raimundo Carrero

Escritor e jornalista

Devo confessar logo nas primeiras palavras: não concordo com essa história de que o conto é a mais difícil arte narrativa por causa do espaço físico. Desde que comecei a ler tenho lido essa bobagem. Número de páginas, de palavras, de parágrafos não define nada. Pode-se conhecer  a profundidade de um personagens numa palavra, num gesto, num olhar. E, se é assim com o personagem, também é assim com uma história, que se conta numa frase, num parágrafo, o até num verso.

Toda a tragédia de Ana Karenina está contida neste breve parágrafo de Tólstoi: “Quis atirar-se para debaixo do vagão que nesse momento chegava junto dela, mas a maleta vermelha, de que procurava desprender-se, distraiu-a e não lhe deu tempo: o centro do vagão já tinha passado. Era preciso esperar o imediato. Uma sensação parecida com a que costumava experimentar ao entrar na água à hora do banho se apoderou dela, e persignou-se. Esse gesto familiar despertou-lhe  na alma recordações da infância e da juventude”.

É claro que o parágrafo é precedido de um romance inteiro com mais de setecentas páginas, mas a precisão do texto, o nível das informações de uma mulher que, no momento do suicídio sob o vagão de um trem, mas a maleta vermelha impede  o gesto antecedido de uma magnífica sensação de alívio e bem estar semelhante ao refrigério que  se sente ao sair de um banho” arripia a alma. Sem adjetivos, sem advérbios, sem a inutilidade de palavras eloquentes e vazias. O verdadeiro escritor não precisa de muitas palavras nem de muitas páginas para revelar um texto tão preciso, convincente e belo. 

Welcome to Copacabana, de Edney Silvestre, representa, justamente, a procura desta linguagem tão bela, tão rica e tão  precisa, confirmando o talento de um escritor que já nasceu maduro, com a beleza do título Se eu fechar os olhos agora no romance de estreia. O livro traz o selo da Editora Record, Rio de janeiro e começa a inquietar a crítica literária, por tudo que se diz aqui e muito mais. Num olhar rápido e imediato, vejamos o Edney Pescreve em “No Rio”: “ Uma  mulher bêbada se ajoelhara a seu lado, baixara o short e começara a urinar ali mesmo. No calçadão. Junto de todo mundo. A seus pé. O  riozinho amarelado, escorrendo, fora se aproximando de sua sandália. Ela chegara a sentir o líquido no calcanhar. Nojento. Empurrara a bêbada. A bêbada caíra. Sobre a própria urina. Gritara. Xingara, se molhara na poça que ela própria criara. Nojenta.” Precisão narrativa sincopada que inquieta a comédia humana. Exata.


Fonte: Diário de Pernambuco

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