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Raimundo Carrero: Luzilá acerta, mas o estudioso não pode errar…

Por Raimundo Carrero
Escritor

Pois é, errei. E errei feio no artigo anterior quando escrevi que a narradora do romance Muito além do corpo, de Luzilá Gonçalves Ferreira contava em terceira pessoa quando, na verdade, é na primeira pessoa com passagens na segunda pessoa. Sim, leitores me disseram que errar é humano, me acalmando. Compreendo e agradeço, mas não devo errar. Nunca posso errar. Erro, erro sempre, não devo mas erro. Não gosto de justificar erro, por isso mesmo. Por conta de ser humano muita idiotice acontece. Não é bem assim.

Existe um monólogo em terceira pessoa, que é a técnica em terceira pessoa com o ponto de vista da primeira pessoa. Não é caso do livro escrito em primeira pessoa, sem dúvida. No romance Madame Bovary, o narrador usa o monólogo em terceira pessoa, sobretudo nos segundo e terceiro capítulos da segunda parte, quando Léon descreve a nudez de Emma e demonstra a paixão que sente por ela, com ansiedade e inquietação. Somente no final da cena é que o narrador revela que o olhar do personagem descrevia toda a cena. Assim: “Do outro lado do fogão, um rapaz de cabelos loiros a olhava silenciosamente. Léon Dupuis prolongava a hora da refeição…”

Posso dizer que me confundi, mas não devo. Bela justificativa, mas inútil, infantil e boba. Errei, está errado, devo evitar no futuro. Na verdade, estou cada vez mais entusiasmado, não só por este livro mas pela obra de Luzilá, que enriquece muito o século de ouro da ficção pernambucana.

O que me parece é que este livro desapareceu no mar de radicalismo político em que estávamos envolvidos na época, mesmo em processo de distensão. O Prêmio Nestlé de Literatura, embora muito importante, era visto como um prêmio ligado à extrema direita e, por isso mesmo, sem merecer crédito da crítica ligada à esquerda. Os vencedores, mesmo sem qualquer ligação política, eram vistos com desconfiança. Daí porque muitos vencedores foram desconhecidos. Um problema, é verdade, mas perfeitamente compreensível. Afinal, era um grave momento de tensão política em todo o país.

Mesmo assim, esta é uma questão a ser posta de lado e devemos agora fazer-lhe justiça, demonstrando as suas imensas qualidades. Tudo isso faz parte da recente história política desta nação, e não cabe julgamentos desnecessários. O que importa agora é o meu erro ao confundir a terceira com a primeira pessoa. Considero que não devo errar nunca, porque tenho graves responsabilidades com os meus leitores. 


Fonte: Diário de Pernambuco

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