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Rogério Micale: um treinador que não dá entrevistas, inicia conversas proveitosas

Pelo menos em sua primeira coletiva durante a preparação para a Olimpíada, o treinador saiu com moral e admiração dos jornalistas presentes


GOAL Por Tauan Ambrosio 


O texto de ontem foi sobre o excelente desempenho de Fernando Prass na entrevista coletiva, a primeira da Seleção Olímpica no período de preparação na Granja Comary. Nesta terça-feira (19), duas coisas seguiram inalteradas em Teresópolis: o frio e outra entrevista repleta de boas frases e, principalmente, conteúdo.

Técnico da Seleção Olímpica, Rogério Micale foi o escolhido para falar com a imprensa. Calmo e tranquilo, sentou na cadeira e começou a receber as perguntas. Questionado a respeito da chegada tardia de Renato Augusto, reconheceu que não era o ideal. Mas lembrou que, por acaso das circunstâncias, era o mínimo que dava pra fazer. E começou a explicar o planejamento estipulado.

“Não vai interferir no nosso modelo de atuar, nós nos adaptamos aos jogadores, mas existem conceitos estabelecidos”, disse. Simples, sincero e sem parecer forçado. Micale não estava falando palavras técnicas ao vento. Estava realmente iniciando uma conversa sobre futebol, em uma sala cheia de pessoas que amam debater sobre o assunto.

Marcações no campo principal da Granja Comary (Foto: Tauan Ambrosio/Goal.com)

A entrevista seguiu e perguntaram a respeito das marcações feitas no gramado principal da Granja Comary – faixas que encurtavam o campo e cones que subdividiam ainda mais os setores. Micale respondeu que tudo aquilo tinha (e tem!) como objetivo trabalhar a assimilação mais rápida do atleta, mostrar a eles o que bem fazer em cada setor do campo.

“Acho que essa demarcação dá uma noção muito clara dos momentos de um jogo, ofensivos e defensivos, onde vamos tentar recuperar posse de bola. Trazem didática melhor. Também podemos marcar os quadrantes que vamos preencher em determinados momentos do jogo”.

Movimentação constante, jogadas pelos lados… o treino desta terça (19) foi intenso (Foto: Tauan Ambrosio/Goal.com)

Recuperação da posse de bola. Uma parte vital do futebol que se joga hoje. Tanto quanto o equilíbrio entre as fases defensiva e ofensiva. Apesar de indicar ver a parte de ‘numeração tática’ como um assunto superestimado pela mídia (chegou até a brincar dizendo que parecíamos estar falando sobre linhas de ônibus), revelou que pretende usar o seu time em um 4-2-3-1 com variações para o 4-3-3 ou até mesmo um super ofensivo 4-2-4.

Só que, para Micale, o poder ofensivo é tão importante quanto o defensivo. E vice-versa! O treinador passou boa parte da entrevista batendo na mesma tecla: a do equilíbrio. Sabendo perfeitamente que o grupo que tem nas mãos tem características bem ofensivas, Rogério Micale garantiu que a sua ideia é “atacar com 11 e defender com 11”. É uma regra não dita, um sujeito oculto entre as equipes mais vitoriosas do futebol atual. Parece simples, mas faltava alguém falando de maneira tão sincera e didática.

“Futebol envolve todos os jogadores, não existe setores que só fazem papel de defender ou atacar. É um conjunto que começa com a participação do goleiro, e o defensivo com a do atacante. A nomenclatura que utilizamos para determinar a plataforma do jogo não pode ser engessada. O jogo é um sistema vivo, muda a toda hora”, lembrou.

(Foto: Lucas Figueiredo / MoWA Press)

Só que Micale não focou somente a falar sobre os seus conceitos, as suas ideias de jogo. Também lembrou que no futebol é importante deixar o talento individual brilhar. E por isso não chegou a assustar quando afirmou que a “Neymardependência” não é algo ruim.

Afinal de contas, todos os times do mundo gostariam de ter um craque como o camisa 11 do Barcelona para se escorar. Fosse outro momento, outro treinador, a mesma frase teria outro sentido – até porque o sistema de jogo era inexistente em nossas últimas lembranças de Seleção Brasileira.

Uma frase dita por Micale que pode explicar, muito bem, por que ele é o cara certo na hora certa é a seguinte:

“O que eu não quero é atrapalhar esses caras, precisa de um sentido de organização para ter um time que possa externar todas as capacidades individuais, que são muito grandes”.

Humildade, conhecimento, e a confiança sem ego inflado. Coloque tudo isso em uma receita e a chance de o trabalho ser bom é muito grande.

Micale, em bate-papo com jornalistas após a coletiva (Foto: Tauan Ambrosio/Goal.com)

Após o final da coletiva, um momento ainda mais raro. O treinador olímpico se reuniu com jornalistas para trocar algumas ideias. Disse, por exemplo, que não é impossível imaginar um time titular de acordo com a numeração oficial do torneio, divulgada pela CBF. Tal equipe (confira aqui a numeração!) seria bastante ofensiva, mas Rogério Micale malandramente não disse a situação na qual essa escalação seria usada.


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O Brasil ainda não tem nem um time titular definido, nem um capitão. Mas, ao contrário do que vinha acontecendo, a confiança sóbria de quem sabe ter capacidade é um fator que anima. A avaliação crítica não é algo absoluto, mas dá para imaginar um time jogando ao menos sob uma base definida, dando organização e segurança suficientes para o talento individual aparecer.


Fonte: Goal.com

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