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Tiro no pé

O prefeito do Rio, Eduardo Paes (PMDB), começou a colocar as manguinhas de fora e seu projeto político na rua. A menos de um mês do começo da Olimpíada, ele tenta descolar sua imagem da parceria de anos com outros anfitriões.

É um jogo perigoso, mas ele sabe que, se posar como o rei da festa e tudo sair como esperado, o prêmio é viabilizar seu nome como alternativa à presidência em 2018, ainda que diga que o próximo passo seria o governo estadual.

O caminho natural para brilhar já está aberto. Temer é um presidente que não é presidente, candidato a vaias nos Jogos. O governador licenciado do Rio Luiz Fernando Pezão (PMDB) segue em tratamento médico, e seu interino, Francisco Dornelles (PP), é um ilustre desconhecido, nacionalmente falando.

No turbilhão de críticas que o Rio vem recebendo, principalmente em relação à criminalidade, que tem como coadjuvante a falência do Estado, o alvo do primeiro ataque pesado foi justamente a ineficiência do governo estadual em relação à segurança pública.

Paes disse que o Estado tem feito “trabalho horrível na segurança”, que deveria “tomar vergonha na cara”, “arregaçar as mangas”, “parar com o chororô”. É uma boa cartada se despir de responsabilidades e pode até colar porque a segurança pesada está na conta do governo estadual, mas falta esclarecer a falta de patrulhamento da Guarda Municipal (GM), que pode ajudar a manter a ordem, coibir pequenos delitos ou organizar o trânsito caótico na cidade.

Segunda-feira (4), era possível andar pela orla inteira do Leblon ao Arpoador sem avistar um único policial civil ou agente da GM. Infelizmente o que deu para ver foi um senhor ser roubado. Também sempre me pergunto o que fazem os agentes da CET-Rio, além de acenar para que os carros passem no sinal verde e parem no vermelho, sem no entanto terem poder de multar qualquer tipo de infração.

Num outro episódio, Paes pediu aos turistas que não venham ao Rio esperando encontrar cidades como Londres ou Nova York. Nessa altura do campeonato, essa ressalva soa como desculpas adiantadas. Vem, vai entrando, fique à vontade, a cerveja está gelada, mas não reparem na bagunça. Para o prefeito, talvez o Rio esteja para Londres e Paris, assim como Maricá está para o Rio.

Nessa tentativa de se blindar em relação aos problemas mais óbvios, o que causa espanto é a insistência de Paes em manter o nome de Pedro Paulo Carvalho como seu candidato à prefeitura. Não é de hoje que a vida pessoal de políticos é exposta e explorada por adversários.

Mas o caso da agressão na qual Pedro Paulo esteve envolvido ganha ainda mais projeção num momento importante em que a violência contra a mulher vem sendo muito mais discutida e combatida.

Não haverá trégua. No dia do lançamento de sua pré-candidatura à prefeitura, o deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL) referiu-se a Pedro Paulo como espancador, carimbo que vem grudando na imagem do candidato do PMDB como chiclete em sola de sapato.

Eduardo Paes talvez esteja tão seguro —e há chances de que esteja certo— de que a Olimpíada será um sucesso estrondoso, que o seu capital político será suficiente inclusive para limpar a barra de Pedro Paulo. Mas se for um fracasso, isso tudo pode ser só tiro no pé.


Fonte: Folha.com.br

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