Vladimir Souza Carvalho: Louvação a Portugal

Por Vladimir Souza Carvalho
Magistrado

A primeira vez em que estive em Lisboa observava, espantado, no metro – lá não é metrô -, a voz a anunciar a estação da Avenida Marques de Pombal. De forma bem clara, ouvia: próxima estação: evenida. Ou seja, o a era trocado pelo e. Anos depois, em Fátima, no local exato em que a Virgem Maria teria aparecido, prestava atenção a freira, bem magra, dura como um poste, o rosto seco a lembrar uma figura de madeira, a rezar  Ave Maria: Evé Meria. Aí me lembrei de outra cena, da primeira viagem, no Centro Comercial Colombo – que resiste ao batismo de NÃO ser shopping na pureza da última flor de Lácio inculta e bela.

Fui comprar dois copos de shop. Eu dizia que queria shop, o atendente me respondia com uma pergunta, confundindo shop com sopa: sopa? Não temos. Recuei. Vai lá, Cristiane, você que é filha de português, entende melhor que eu. Não era shop o nome devido, e sim Cristal. Bem, o líquido saboroso fazia a gente esquecer as escorregadas na língua, sobretudo eu que, ante a palavra pronunciada com rapidez, termino sem entendê-la, mesmo aqui, entre os índios da minha aldeia.

Recentemente, no Aeroporto de Lisboa, resolvido o problema do peso de uma das malas, fiquei procurando um guichê vazio para ser atendido. Aí gritei para Vladimir e Pedro quando vi um guichê vazio: atacar! A servidora da Tap vislumbrou um obstáculo no verbo atacar. Atacar, não, alertou. E eu, rapidamente, justifiquei que o verbo atacar era de significado amplo, abarcando ali o de avançar.

Ah, Portugal, na surpresa de, no desembarque, em lugar do termo bagagem, ver sempre a seta indicar Recolha de bagagem. Na sala de embarque, nos vasos destinados ao lixo, o que não for vidro, embalagem de plástico e papel, a receber o termo indiferenciado. No campo esportivo, o gol é golo, a equipe é equipa, e assim por diante, com o termo também sendo sonorizado como tambám, a palavra avariado para alertar o não uso do vaso sanitário que, fosse entre nós, receberia a expressão diferente, ou seja, com defeito.

Mas, valeu a pena ir a Portugal, torcer pela seleção portuguesa na Euro 2016, ainda que com uma dor imensa no peito, porque, afinal, nós, brasileiros, não temos mais seleção.


Fonte: Diário de Pernambuco

Deixe seu comentário

Comentários via Facebook