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Baixarias a 72h do fim do processo de impeachment derruba o nível do debate

O Senado atingiu ontem o nível mais baixo no debate político desde a abertura do processo de impeachment da presidente afastada, Dilma Rousseff. Um bate-boca generalizado, que começou novamente após um entrevero entre os senadores Lindbergh Farias (PT-RJ) e Ronaldo Caiado (DEM-GO), levou o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), a pedir a palavra para acalmar os ânimos. Em vez disso, ele riscou o fósforo e o plenário explodiu de vez.Renan criticou a postura da petista Gleisi Hoffmann (PT-PR), por ter dito três vezes, ao longo dos últimos dois dias, que o Senado não tem moral para julgar Dilma Rousseff. “Ela não pode dizer isso, quem não tem moral é ela. Essa não é uma Casa de doidos”. Alguém lhe soprou no ouvido que isso incendiaria o circo. Renan não recuou.

“Como uma senadora pode fazer uma declaração dessa? Exatamente uma senadora que conseguiu, há 30 dias, que o presidente do Senado Federal conseguisse, no Supremo Tribunal Federal, desfazer o seu indiciamento e do seu marido.” Em 23 de junho deste ano, o marido da senadora, o ex-ministro do Planejamento Paulo Bernardo, foi preso na Operação Custo Brasil, um desdobramento da Lava-Jato, acusado de montar um esquema de fraudes na liberação de créditos consignados que teria desviado cerca de R$ 100 milhões.

Gleisi se exasperou. Disse que era mentira. Lindbergh encostou em Renan, e o presidente do Senado pediu para que o petista tirasse a mão do ombro dele. Assustado, o presidente do Supremo Tribunal Federal, Ricardo Lewandowski, que comanda a sessão do impeachment, resolveu antecipar a pausa para o almoço para que os senadores esfriassem a cabeça. “Vou utilizar meu poder de polícia para exigir o respeito muito”, disse o presidente do Supremo.

“Achei desproporcional as palavras da senadora Gleisi. Mas admito que também me excedi”, disse Renan, no fim da tarde. “O que os deixa irritados é que estamos chegando até o fim do processo e eles não conseguem descobrir como me posicionarei. E não direi. Não gosto de me explicar, prefiro que me interpretem”, filosofou.

O presidente do Senado repetiu a menção que fizera a Nelson Rodrigues na intervenção. Só que, desta vez, remeteu-a ao contexto do prolongamento do embate político na Casa. “A burrice é infinita. Por isso ele dizia que queria ser burro, para ser mais feliz. Esse embate político não está levando a nada, eles não estão ganhando nenhum voto. Pelo contrário, estão perdendo”, completou.

Renan já havia explicado, por meio de nota oficial, que as referências feitas por ele em relação a Gleisi eram alusivas a duas petições protocoladas pela Mesa Diretora perante o Supremo Tribunal Federal para tratar de manifestação pública e institucional decorrente da operação de busca e apreensão realizada no imóvel funcional ocupado pela senadora e do indiciamento da congressista pela Polícia Federal. “Tanto ela quanto Lindbergh me agradeceram no plenário”, ironizou.

Conselho de Ética
No início da noite, Gleisi afirmou que não pedirá desculpas por nenhuma de suas palavras. Ela ainda reiterou o que dissera na quinta-feira. “Uma parte dos senadores não pode participar (deste julgamento)”, reafirmou Gleisi. “Eu mesma respondo a inquérito”, lembrou, ao se referir a um caso em que o Ministério Público a acusa no Supremo Tribunal Federal de receber R$ 1 milhão em propina desviada da Petrobras.

A senadora Ana Amélia (PP-RS) disse que pretende ingressar com uma queixa contra Gleisi no Conselho de Ética — em caso de condenação no colegiado e no plenário, poderia haver até a cassação de mandato. Mas a senadora petista disse que não ofendeu o Senado. “Não pretendo fazer pedido de desculpas. Não ofendi a instituição.”

Líder do PMDB no Senado, Eunício Oliveira (CE) admitiu que caberia a abertura de um processo contra Gleisi no Conselho de Ética. Mas ele, pessoalmente, acha que isso não ajuda no momento, pois serviria apenas para acirrar ainda mais os ânimos políticos.

Se Gleisi não recua, os senadores Lindbergh Farias (PT-RJ) e Ronaldo Caiado (DEM-GO) tampouco mudaram suas posições. Eles foram o estopim da confusão que culminou com a suspensão da sessão, após Caiado acusar Gleisi de ter aliciado a testemunha Esther Dweck, ao chamá-la para trabalhar na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE). Na sequência, Lindbergh bradou ao microfone em defesa de Gleisi. “Esse senador que me antecedeu é um desqualificado.”

A sessão foi suspensa pelo presidente do STF por cinco minutos e os microfones, cortados. Enquanto Lindbergh gritava que quem sabia de Caiado era o empresário preso Carlinhos Cachoeira, Caiado afirmava que havia uma “cracolândia no gabinete do senador fluminense” e usava termos como “canalha” e “comedor de bola (suborno)” para ofender o Lindbergh.


Fonte: Diário de Pernambuco

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