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Clóvis Cavalcanti: Garanhuns e qualidade de vida

Por Clóvis Cavalcanti

Presidente da Sociedade Internacional de Economia Ecológica (ISEE)

Desde minha infância, Garanhuns sempre exerceu fascínio em minha vida. Nasci no município de Maraial, a 80 km de lá, onde minha bisavó Maria Luísa Cavalcanti era senhora do engenho Taquarinha. Meu avô João Florêncio Cavalcanti, que também possuía terras e era comerciante, mudou-se para Alagoas, onde comprou engenho não longe de Garanhuns. Meu pai, seu primogênito, foi cursar o secundário em Garanhuns. Morava em casa adquirida por meu avô perto do Colégio Santa Sofia. Garanhuns dispunha de bons educandários e outros bons serviços. Tinha um jornal, O Monitor, no qual meu pai fez trabalhos de jornalista. Com a falência de meu avô durante a depressão dos anos 1930, meu pai conseguiu o emprego de contador na Usina Frei Caneca, município de Maraial. Aí nasceram seus primeiros oito filhos (sou o mais velho). Os três últimos, na Maternidade do Derby, Recife. O fascínio de Garanhuns era porque as coisas boas de que precisávamos – cenoura e couve-flor, por exemplo, além de bens industrializados – vinham de lá. A viagem de trem, o meio de transporte par excellence da época, de Frei Caneca a Garanhuns, constituía experiência simpática. Minha irmã mais velha foi interna no Colégio Santa Sofia. Em suma, como o Recife ficava no dobro da distância de Garanhuns, era desta de que dependíamos mais.

Lá, fiz turismo adolescente com um colega de internato em Nova Friburgo, o carioca Sérgio Trindade, grande amigo até hoje, que veio me visitar nas férias de 1958. Lá, passei dias, algumas vezes, com a família toda, no Sanatório Tavares Correia, maravilha de hotel cujo charme de outrora, infelizmente, não se vê mais. Eu não visitava a cidade há muitos anos, até participar do VII Festival de Inverno de Garanhuns (FIG), em 1997. Daí por diante, casado com Vera, de família local, as visitas se tornaram frequentes, permitindo-me concluir que Garanhuns é a melhor cidade de Pernambuco e uma das melhores do Brasil.

Melhor, claro, em termos de qualidade de vida. Impressionam as condições eficientes dos serviços disponíveis na cidade, de mecânico de automóvel a plantões em hospitais do bom polo médico dali; de lojas diversificadas, como a Ferreira Costa, a estabelecimentos mais simples. Garanhuns possui excelente papelaria. Tem laboratórios fotográficos de boa qualidade, o que inclui técnico de máquinas fotográficas de apreciável competência. As ruas são bonitas, arborizadas. Na av. Rui Barbosa, eixo de acesso ao centro para quem vem de Caruaru, os cuidados urbanísticos fazem inveja ao Recife e Olinda. As calçadas de Garanhuns oferecem gritante contraste para os vergonhosos passeios públicos da destruída Marim dos Caetés. E a condição de seus imóveis, igualmente, humilha quem se lembra da feiura do Recife na Conde da Boa Vista, no bairro de São José e outras áreas.

Infelizmente, porém, Garanhuns se vê ameaçada pela construção de espigões descomunais (como os que proliferam em Caruaru), totalmente desnecessários, e que enfeiam terrivelmente sua paisagem harmoniosa. A cidade sofre ainda com a desfiguração de belos legados arquitetônicos, a exemplo do prédio do antigo cinema Jardim, modificado impiedosamente por uma cadeia de supermercados. É preciso impedir que essa destruição prossiga. E que se promova cada vez mais o extraordinário FIG, uma criação inspirada do prefeito e meu contraparente Ivo Amaral.


Fonte: Diário de Pernambuco

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