Últimas

Contraditório: você acha que foi positiva a participação do Brasil na Olimpíada?

Sim, em termos, Yane Marques

Vou falar da emoção que senti desde o momento em que pus os pés no Rio de Janeiro, mas pularei a parte árdua dos treinos e da preparação que todo atleta de alto rendimento atravessa visando chegar na ocasião dos jogos olímpicos no melhor da sua forma física.

Para começar, digamos que precisei antecipar minha chegada à Cidade Maravilhosa. Para minha alegria, fui escolhida porta-bandeira da delegação do Brasil na abertura dos Jogos. Que emoção! Como boa foliã pernambucana, entrei no Maracanã – completamente lotado – frevando. O chapéu ameaçou cair e precisei maneirar nos passos. Sensação única que poucas pessoas tiveram a oportunidade de viver. Sabia que aquele momento era ímpar na minha vida. Nos bastidores, comentavam que era a primeira vez que um pentatleta levaria a bandeira de sua nação numa abertura de Jogos Olímpicos. Mais um episódio que vou lembrar para sempre. E olhem que a festa estava só no começo.

O esporte sempre me proporcionou fortes emoções. Então, imagina viver, presenciar e ser parte da maior festa do esporte mundial dentro da minha casa! Já tinha sentido palpitações semelhantes nas edições passadas das Olimpíadas que disputei em Pequim e Londres. Aqui vale uma ressalva de que a Terra da Rainha só me traz boas recordações. Aquele pódio suado e tão festejado. Naquela ocasião, mais uma página da história do pentatlo foi escrita e nela estava meu nome. Orgulho infinito. Mas deixa eu voltar aos acontecimentos vivenciados aqui no país, onde muitos pareciam descrentes de que podíamos fazer uma bela festa. Embora conte muito o ganhar e o perder nas disputas, muita coisa mais relevante acontece em uma Olimpíada e pontuo uma cena ficou gravada na minha mente: uma atleta de Israel conversando com um técnico (acredito eu, pela idade do senhor) do Irã. É a união dos povos! Os conflitos inexistem na terra dos esportes. Só o espírito olímpico para propiciar cenas raras e transformadoras como essa e tantas outras que presenciei.

Essa reciprocidade, essa troca de gentileza e carinho eu senti na pele no dia da minha prova. Apesar da minha inédita conquista em Londres, em 2012, quando trouxe para o Brasil a medalha de bronze, uma grande parte do público não conhece muito bem o esporte que pratico desde 2003. E, nesta edição dos Jogos, eu pude estar mais perto da minha torcida. Mostrar como o pentatlo funciona. Não obtive o resultado que gostaria e tanto sonhei. Não saí da Olimpíada com a medalha materializada naquele arco de metal, mas levo comigo o maior troféu que é uma vida de dedicação aos treinos, aprendendo e desenvolvendo valores inerentes ao esporte, os quais não se dissociam dos atributos necessários para a lapidação de um cidadão honesto. Infelizmente, justo diante do meu público, eu fiz a pior esgrima da minha carreira. Não contava com isso. Segui adiante. Afinal, se a prova acabasse naquele momento eu não estaria sendo pentatleta e sim esgrimista. Restavam quatro provas e eu só desacreditaria de um final feliz após cruzar a linha de chegada.

Minha melhor lembrança vem justamente quando tudo caminha para o desfecho da prova. E, desta vez, eu não estava no pódio. Mas você acha que por esse motivo eu deixei de receber o carinho do público que lotou as arquibancadas do Complexo Olímpico de Deodoro? Negativo! Foi ali que senti toda a cumplicidade das pessoas que foram torcer por mim. Estava correndo, terminando minha prova do evento combinado e as pessoas gritando o meu nome. As medalhas já tinham suas donas. Foi emocionante. Quis retribuir de alguma forma. Peguei a bandeira da minha cidade, Afogados da Ingazeira, e dei a volta no estádio. Rindo, agradecendo, curtindo cada minuto da minha terceira participação em Jogos Olímpicos. Eu não tinha motivos para estar triste.

Minha felicidade se estendeu às conquistas inéditas para o Brasil. Isso é o retrato de um material humano rico que o Brasil possui. Vibrei demais com o ouro de Robson Conceição, no boxe. Parei na frente da TV que instalaram no hall do nosso prédio, na Vila Olímpica, quando estávamos indo para o jantar. Fiquei paralisada com a conquista dele. Ainda teve o bronze no taekwondo, o outro ouro de Thiago Braz, no salto com vara. Quando vimos nossos colegas subindo no pódio, sentimo-nos representados e isso é motivo de muita alegria. Sim, ainda teve o pódio duplo na ginástica, mais um ouro na vela., o ouro de Rafaela e as três medalhas de Isaquias. Poderíamos ter indo mais longe, mas o que conquistamos valeu muito à pena. Essa Olimpíada vai deixar saudade. Sempre deixa. Afinal, é uma experiência que vale à pena ser lembrada pois, no final desse desfecho, somos todos campeões no esporte e na vida.

Não, em termos,  José Nivaldo Junior

Principalmente quando se considera que o País jogou em casa, pela primeira vez na vida e com certeza única para todas as gerações que hoje vivem no continente Brasil.

Bilhões  foram gastos na preparação e realização dos jogos. Deu certo, por este lado. Estrutura e organização acabaram  revelando-se exemplares, nos engrandecendo aos olhos do mundo. Somos capazes, sim, de produzir espetáculos à altura dos melhores do planeta, que o digam a Copa e a própria Olimpíada.

O sucesso desta face da moeda evidencia que faltou o mesmo empenho, a mesma aplicação, a mesma capacidade, no tocante à outra face. Ou seja, fracassamos na tarefa de  gerar atletas que despertassem a admiração também por nossa capacidade esportiva.

Se uma coisa é certa nas Olimpíadas é que ali não existe jeitinho nem sorte. Só ganha quem estiver preparado para competir em altíssimo nível.

A preparação, essa sim,  abre espaço para a ação do acaso, da vocação local, familiar ou pessoal.  Os casos exóticos que  aparecem a cada quatro anos, raramente têm sequencia em um trabalho sustentável,  formador de  gerações de atletas.

Pelo contrário, raramente se repetem. Quando os atletas ou famílias campeãs  encerram as suas carreiras, a modalidade fenece. E o surgimento de atletas de ponta passa a depender de  algum esforço localizado ou fenômeno nunca dantes percebido.

Por isso, inclusive este ano, ouvimos nos emocionantes momentos de vitórias individuais,  a recorrência da palavra “superação”. Referindo-se quase sempre à dramática situação social e a absoluta falta de condições objetivas de onde emergiram inesperadamente  anônimos  heróis e heroínas.

Existem exceções. Nos esportes coletivos atletas regiamente remunerados e com abundantes espaços na mídia se despem do seu profissionalismo para perseguir o sucesso olímpico. Em nome do patriotismo e de olho na evidência valorizadora, representam o papel de amadores. Conceito olimpicamente tão  ultrapassado como o lema original  “o que vale é competir”.

Formar atletas, nos países que se sustentam no alto do pódio olímpico, não é trabalho eventual nem meta  circunstancial. É decisão permanente, que envolve economia, políticas sólidas, investimentos, disciplina. E também  a consciência de que mais que o retorno em patacões de ouro, prata ou bronze, o alto do pódio significa a melhor propaganda que um país pode fazer de si próprio.

Para um país emergente, que representa  a oitava economia do mundo,  o modesto 13º lugar no quadro geral de medalhas nunca poderá ser considerado um bom resultado. Nem aqui, nem na China ou no Japão.

Resta o consolo de que escapamos de um vexame em casa. E a certeza de que sem os atletas serem identificados, orientados e preparados a partir da escola,  jamais venceremos essa barreira. Sem trocadilho, é no processo educacional  que se formam as escolas esportivas.

O sucesso olímpico é o melhor retrato do êxito de um modelo educacional.  É na escola sem qualidade  que perdemos as nossas medalhas.


Fonte: Diário de Pernambuco

Deixe seu comentário

Comentários via Facebook