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Dia dos Pais: jovens prestam homenagens aos padrastos

Pai é quem cria. Tema de campanhas publicitárias neste Dia dos Pais, a relação entre enteados e padrastos rendeu muitas homenagens neste domingo. Laços de sangue nem sempre são necessários para que os homens assumam a função de pai. É o caso dos jornalistas Laiwany Adairalba Dantas e Edgar Borges. Moradores de Boa Vista, em Roraima, enteada e padrasto têm afinidades que vão além da escolha da profissão. São pai e filha, como a jovem deixa claro. Histórias como a deles se repetem em todo o país e, em homenagem aos pais – de sangue ou não de todo o Brasil – o Diario publica a homenagem de Laiwany ao padrasto. 

Leia a homenagem de Laiwany na íntegra:

Meu irmão tem sorte

Eu ainda era uma criança quando o pai do meu irmão passou pelo portão da minha casa pela primeira vez.
O ”amigo da mamãe” a fazia sorrir pelos cantos e passar horas encostada na porta da geladeira grudada no telefone.
Não demorou muito para que os dois me chamassem para uma conversa. Ele me pediu para namorar com ela e eu deixei.
Com o tempo os sanduíches que o pai do meu irmão antes levava como técnica infalível para conquistar a filha da namorada diminuíram e as broncas aumentaram. Ele me proibiu de tomar refrigerante no café da manhã porque não era saudável e, nessa mesma época, me magoou com uma piadinha sem graça que rendeu horas de choro da minha parte e pedidos de desculpas da parte dele. ”Foi mal!”.
Algumas vezes ouvi que ele não planejava ter filhos, e surpreendida quando minha mãe passou mais cedo no colégio para me buscar e fomos ao laboratório juntas. Ela estava feliz e dizia que só poderia me contar o que era quando saísse o resultado.
Havia feito um pedido de presente de natal e fui atendida no dia 10 de janeiro do ano seguinte, quando recebi a ligação do pai do meu irmão com uma voz embargada e eufórica dizendo que ele estava nascendo.
O pai do meu irmão me mandou sair do Orkut inúmeras vezes para estudar, corrigiu as redações que eu fazia na escola e questionou a nota máxima que a professora me dava para ”textos tão ruins”.
Certa vez presenciei uma séria discussão em casa. Em mais de uma década foi a única vez que isso aconteceu, mas suficiente para que eu entrasse em desespero. Estava almoçando quando cogitei a possibilidade de separação e caí no choro.
Foi ali que descobri o quanto o pai do meu irmão era importante na minha vida.
O resultado do vestibular saiu. Aprovada na Universidade. Ele me ligou para dar a notícia e: ”Você não sabia que o resultado sairia hoje? Não leu o edital?”.
Sorri em silêncio.
Quando decidi sair de casa aos 17 anos para morar em outro Estado o pai do meu irmão me apoiou. Na sacada do apartamento me deu conselhos e, antes de sair, disse ”Finalmente me livrei. Tchau!”.
Um ano depois adoeci e precisei voltar.
Ao passar pela porta, chegando de madrugada do aeroporto, ouvi ainda no escuro: ”Droga! Meu escritório vai voltar a ser seu quarto?”, e não tive como não cair na risada e dar um abraço meio fraco e desajeitado de ‘Ok, talvez seja mesmo mais fácil superar tudo isso com vocês’.
”Vai lá no quarto acordar seu irmão. Ele vai gostar de te ver!”.
Viajei para para resolver minhas questões de saúde e, na demora de conseguir um tratamento adequado numa situação urgente, o pai do meu irmão ligou pedindo que não esperássemos mais por nada e por ninguém.
”Você é cara, hein?! Não vou mais te chamar de ‘Pequena Libélula’. Agora vou te chamar de ‘Mile’ (referente aos milhares que teve que custear)!”.
Quando a coisa ficou ainda mais séria, meses depois, o pai do meu irmão continuou com a gente. Saindo do hospital, todos os dias por um bom tempo ele chegou do trabalho e foi direto para o meu quarto me fazer companhia, me contar como estavam as coisas lá fora e dizer que ”Sempre fui o primeiro a prezar pela sua liberdade, mas agora você só vai voltar a ser dona do seu nariz quando aprender a cuidar da sua saúde”.
Naquele momento passamos a orar em família todas as noites, mesmo não sendo a crença do pai do meu irmão, porque era importante para a minha mãe.
Ao me escutar lamentando o atraso da minha vida acadêmica decorrente de tudo o que tinha acontecido foi o primeiro a dizer que ”Ahhh bicho, para com isso! Ninguém está te cobrando nada aqui, então não se cobre. Você ainda tem algum tempo…” e quando melhorei o primeiro a dizer que ”Seu ano sabático acabou. Hora de voltar a ter uma vida normal! Vamos estudar? Vamos trabalhar?”.
Passei em primeiro lugar para jornalismo. A profissão do pai do meu irmão. O que eu realmente queria. ”Meus pêsames!”, ele disse.
Se ele já me fez algum elogio nessa vida? Sim! Que eu tenho que voltar a ser blogueira porque tenho o dom de escrever. E eu devo parte disso ao que já contei lá em cima. Acho que o jogo virou não é mesmo?!
Semana passada, ao ouvir meu irmão reclamar da ordem do pai de pausar o Minecraft para fazer as tarefas de casa, parei o que estava fazendo para dizer o quanto ele tem sorte de ter o pai que tem. Por fim, depois de me fazer algumas perguntas sobre o assunto e ouvir minhas respostas, ouvi um ”Então você também tem sorte de ter o papai, né?!”.
É… Eu tenho!
Tudo isso que um dia eu vivi, senti e guardei no coração, hoje precisa ser dito para ele que, mesmo só sendo o pai do meu irmão, é a pessoa que eu tenho orgulho de desejar um feliz dia dos pais!


Fonte: Diário de Pernambuco

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