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Duciran Van Marsen Faren: Juiz Kafka, reloaded

Por Duciran Van Marsen Farena

Procurador regional da República

Já falei dele em outros artigos. O juiz Kafka é aquele que queria pena de 30 anos de prisão para o crime de rolezinho, e, em 2013, disse que absolveria sumariamente o policial que dispersasse as manifestações à bala. Mas como é juiz federal, sua severidade recai apenas sobre os pobres coitados que compartilham sinais de internet ou montam rádios sem autorização da Anatel, o que ele considera crimes capitais. Em compensação, sonegação e corrupção na Vara dele recebem leniência total. Quando o processo envolve políticos ou empresários poderosos e cai com o juiz Kafka o procurador até desanima – a absolvição é favas contadas. E o recurso, sem chance: o juiz Kafka é muito prestigiado pelo Tribunal Regional, que mantém todas suas sentenças. 

Tanto absolvicionismo, no entanto, nunca impediu o juiz Kafka de alugar o ouvido do procurador nos intervalos das audiências com discursos inflamados contra a corrupção que se apoderou do país, os quais o procurador escuta com um sorriso amarelo e comentários monossilábicos, enquanto consulta repetidamente o relógio para ver quanto tempo falta para acabar aquele suplício. “Tem que botar na cadeia esta corja! Cadê o chefe de vocês, que vê tudo e não faz nada?  O que falta ainda?” e assim por diante. De fato, o país está cheio de corruptos. Mas nenhum deles passa por aquela Vara; ali só se vê um desfile de inocências. O juiz Kafka tinha uma página do Facebook, que divulgava um ou outro artigo jurídico e de entretenimento. No entanto, com a boa repercussão de uma postagem contra o governo, ano passado, que recebeu centenas de “likes”, a página transformou-se em campeã da moralidade pública. Só se via ali a mansão do Lula, o sítio, o triplex, pedaladas, comentários exaltados, etc. 

O juiz experimentou uma emoção nova: a popularidade. Acumulou mais de mil seguidores, que o tratavam de forma reverencial: “O país precisa de juízes com a coragem de Vossa Excelência”; “Será que o meritíssimo juiz poderá ir à manifestação…”. Ele, que abominava passeatas, tornou-se assíduo frequentador. Cara pintada, envolvido na bandeira nacional, tirava inúmeros selfies com admiradores, que imediatamente eram postados na rede social. O êxtase cívico passou, e o juiz voltou à rotina. “Janot está LOU-CO!” vociferou ao procurador, quando soube do pedido de prisão de Renan, Jucá e Sarney. Mas ficou no juiz um comichão, e sentiu a necessidade de unir o discurso à prática. Sua vocação absolutória até então era suprapartidária; anos atrás, teria absolvido o próprio Lula, mas agora exultou quando caiu-lhe nas mãos uma ação de improbidade administrativa, vereador do PT, desvio de recursos federais destinados a uma associação comunitária. Tacou-lhe, de cara, uma indisponibilidade de bens – nunca havia deferido isso antes. Chamou de “organização criminosa”. O procurador quase cai da cadeira quando leu o despacho. O advogado é que não dormiu no ponto, e juntou, na exceção de suspeição, cópia do Face do juiz, onde ele comemorava a depredação de uma sede do PT como “ato legítimo de revolta popular”. A exceção ainda não foi julgada, mas já produziu um efeito dramático: a página do juiz está agora indisponível, deixando órfãos seus milhares de seguidores.


Fonte: Diário de Pernambuco

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