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Duciran Van Marsen Farena: Juiz Kafka, Upgraded

Por Duciran Van Marsen Farena
Procurador regional da República

O juiz Kafka – já falei dele em outros artigos – é aquele que é o terror dos zés-ninguém, mas é uma mãe para políticos e poderosos. O que não o impede de manter discursos inflamados contra a corrupção, para desespero das orelhas cativas do procurador que atende às suas audiências. Só uma vez o juiz Kafka saiu da linha – foi quando, no calor do impeachment, pegou pesado com um Vereador do PT, acusado de desvio de verbas federais. Mas deu ruim: o advogado vasculhou o Facebook do juiz, encontrou, dentre outras coisas, uma postagem em que ele comemorava a depredação de uma sede do partido, botou tudo nos autos e representou na Corregedoria.

A representação foi arquivada, mas o juiz teve que se julgar suspeito na ação, e cancelar o Face, para evitar maiores complicações. Após este episódio, ele voltou a seu leito natural: a impunidade ampla, geral e irrestrita. Seu prestígio no Tribunal, contudo, permaneceu inabalado: Ei-lo agora revestido das honras e pompas do cargo de Desembargador Federal, em substituição a um membro da corte em licença médica.

Obra e graça de seu protetor e amigo, o Desembargador Federal Xerxes. Xerxes é da filosofia de Kafka, mas em um grau maior de pureza: enquanto Kafka realmente acredita que o país está cheio de corruptos, mas por sorte nenhum em sua jurisdição, tendo até elogiado o juiz Moro quando tinha o Face, para Xerxes a Lava-Jato é apenas uma conspiração diabólica do Moro, procuradores fanáticos e a mídia para criminalizarem a política e os negócios. E não tem papas na língua em dizer que propinas são o meio natural de azeitar a emperrada máquina pública brasileira, não importa o que diga a lei. É de direita, mas para ele Zé Dirceu é um injustiçado.

No Tribunal, Kafka passou a direcionar contra os servidores públicos toda a severidade que antes descarregava nos pobres coitados que distribuem wi-fi sem autorização: Ai de quem aparecesse ali pedindo uma remoção ou uma incorporaçãozinha de gratificação! Kafka desencavava leis, regimentos e até ordenações para convencer seus colegas de que aquele pedido era apenas mais uma tentativa de obter maiores privilégios e mamatas. Um belo dia, cai na Turma um habeas corpus de figurões presos, desdobramento da Lava-Jato. Kafka pede à assessoria uma manifestação pela concessão, no mínimo 30 laudas, para fazer história. Os advogados até fazem a visitinha de praxe, mas só conversam sobre amenidades: com Kafka e Xerxes, a liberdade dos acusados era fatura liquidada! Dia da sessão, auditório lotado. Xerxes, o relator do caso, inicia seu rápido voto, e para espanto de Kafka, é pela denegação! Enquanto o outro membro da Turma apresenta substancioso voto contrário aos réus, Kafka vê entrar no auditório uma equipe de televisão…Chega a vez de Kafka, que, vendo-se num mato sem cachorro, declara singelamente: “acompanho o relator…” 


Fonte: Diário de Pernambuco

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