Editorial: Marco Feliciano e o benefício da dúvida

Uma petição assinada por 22 deputadas foi entregue ontem ao presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), requerendo que o deputado Marco Feliciano (PSC-SP) seja investigado pelo Conselho de Ética da Casa. Ele é acusado de tentativa de estupro, assédio sexual e agressão pela ex-militante do PSC Jovem e estudante de jornalismo Patrícia Lélis, de 22 anos.

Segundo seu relato, o parlamentar a atraiu para o apartamento funcional dele, onde teria feito propostas de que ela se tornasse sua amante. Caso aceitasse, teria um cargo no partido e um salário de R$ 15 mil. Patrícia diz que não aceitou, o que teria deixado Feliciano “alterado”, conforme a sua versão.

“Ele tentou me arrastar para o quarto e tirar meu vestido. Como eu resisti, ele me deu um soco na boca e um chute na perna”, afirmou a jovem, que disse ter conseguido escapar do apartamento depois que uma vizinha escutou seus gritos e apertou a campainha. “Ela tocou tantas vezes que não teve como ele não abrir. Quando ele abriu, eu saí”, contou Patrícia. Domingo passado ela registrou queixa na polícia.

Ontem a revista Veja divulgou vídeo que mostra uma suposta negociação entre a jovem e o chefe de gabinete do deputado, Talmo Bauer. Para não denunciar o caso, ela receberia uma quantia em dinheiro. Segundo a revista, a conversa gravada aconteceu em 30 de julho passado.

Sem querer entrar no mérito da questão, que ainda está na fase da denúncia e queixa à polícia, não há como não deixar de perceber as ironias que cercam o caso. Ex-presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara, pastor, principal nome da bancada evangélica no Congresso e um reconhecido defensor dos “valores da família tradicional”, Feliciano é autor de projeto de lei que defende a castração química de estupradores. O segundo ponto irônico é que a denunciante Patrícia afirma que, como “militante de direita”, sempre criticou as mulheres que participavam de movimentos feministas, mas agora são elas que mais lhe tem apoiado: “Quem mais tem me dado apoio neste momento são as feministas, mulheres as quais sempre ofendi são as que mais me ajudam”.

Em vídeo divulgado no último sábado, no qual aparece ao lado de sua mulher, Edileuza, com quem está casado há 24 anos, Marco Feliciano negou a tentativa de estupro e agressão. Não entrou em detalhes sobre o caso, mas prometeu apresentar provas de sua inocência posteriormente, e quer que Patrícia “seja responsabilizada pela falsa comunicação do crime”. Ao final pediu que “não o condenem antes do tempo”.

Este é um daqueles casos em que não há meio termo: no essencial, ou o acusado ou a acusadora está mentindo descaradamente. Que ninguém seja condenado antes de ter culpa provada, mas também que ninguém fique impune se não for inocente.


Fonte: Diário de Pernambuco

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