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Editorial: O trágico fim do jovem que tocava violino

Um jovem que tocou para o papa Francisco, no Vaticano, foi morto a tiros anteontem no Recife. Será enterrado hoje. Além da profunda dor que a notícia provoca, ela também é reveladora dos perigos que cercam os jovens pobres do Brasil.  

Moysés Gonçalves, o rapaz assassinado, tinha 21 anos. Foi um dos integrantes do bem-sucedido projeto da Orquestra Cidadã, na qual começou tocando violino, aos 11 anos. Nesse período chegou a ser monitor, e fazia parte do grupo que tocou para o papa em novembro de 2014. Em maio passado, deixou a Orquestra, envolvendo-se com o tráfico de drogas. Foi executado segunda-feira à noite, no Coque, onde morava com a família. Dois homens aproximaram-se do veículo em que ele estava, com o pai, e começaram a atirar. Moysés morreu no local; o pai dele, felizmente, escapou. 

Não é o primeiro caso dessa natureza, e certamente não será o último. Também não é algo específico de um estado. No Brasil temos o que especialistas costumam definir como uma “mortandade de jovens”, principalmente de negros. Relatório da CPI de Assassinato de Jovens, apresentado em junho passado no Senado, mostrou que aproximadamente 30 mil brasileiros na faixa dos 15 aos 29 anos são assassinados por ano no país. É um número escandaloso: dá cerca de 82 por dia.  

O caso de Moysés é a narrativa com final infeliz de alguém que começou tocando violino e fazendo parte de uma orquestra em um ambiente onde isso é tão raro que vira notícia e ganha prêmios, como os que a Orquestra Cidadã merecidamente conquistou. Lembra o ocorrido com Fernando Ramos da Silva, o garoto que em 1981 estrelou o filme Pixote – a lei do mais fraco. Aos 19 anos, em 1987, Fernando foi também morto a tiros.  Diferentes nos detalhes, mas idêntico no final marcado pela tragédia, os dois casos mostram como é estreita a porta de saída daqueles que desde o berço enfrentam as adversidades da pobreza.


Fonte: Diário de Pernambuco

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