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Filipe Tenório: Homem – o sexo frágil da saúde

Por Filipe Tenório

Andrologista e membro da Andros Recife

Quando um ministro expressa publicamente como uma relação causal a lacuna dos cuidados com a saúde masculina com a jornada de trabalho, percebe-se quão profundo a estrutura do machismo atrapalha a cultura do cuidado integral dos homens. Declarar que “[o problema] é uma questão de hábito” é não apenas, em pleno movimento de empoderamento feminino no mundo todo, perder-se em visões de gênero retrógradas, mas também omitir-se negligentemente da responsabilidade de tratar do bem-estar de 49,2% dos brasileiros.

Um estudo do próprio Ministério da Saúde (MS) aponta que 31% dos homens não buscam atendimento em postos de atendimento e, o pior, a maioria deles (55,1%) acha que não precisa. Tudo isso contribui para a expectativa de vida masculina brasileira ser sete anos menor que a feminina. Em contrapartida, só em 2009, ano em que o MS completou a maioridade, é que o Brasil lançou a Política Nacional de Atenção à Saúde do Homem.

Afora a ausência de diálogo entre as estatísticas, necessidades latentes de atenção à saúde dos homens e a prática de políticas públicas eficientes, um fator gerador desse medo deles na hora de procurar o médico é que, muitas vezes, a porta de entrada ao sistema de saúde é o urologista. E, com o nome urologia, vem a imagem do exame retal – o famigerado toque – que em pleno terceiro milênio ainda assusta a maior parte do sexo masculino!

O interessante é que os tabus são quebrados logo de cara, pois a maioria dos homens se surpreende com a rapidez e a simplicidade do teste. Logicamente, o tipo de abordagem que o especialista faz tem grande influência nessa perspectiva do paciente, porém, esses e outros mitos cairiam por terra se mais recursos fossem investidos na importância do rastreio do câncer de próstata – segunda causa de óbito por câncer e atinge cerca de 3% dos homens adultos.

Fundamental é começar incentivando a procura pela assistência médica muito antes de se completar 50 anos, mas, principalmente, após a puberdade, período de alterações hormonais e com possibilidade de início de problemas de fertilidade. A verdade é que o acompanhamento deve ser durante toda a vida adulta, com o objetivo de identificar precocemente qualquer mudança física significativa.

Alerta vermelho para as doenças sexualmente transmissíveis, patologias bem frequentes e que, se não reconhecidas e tratadas no início, podem trazer complicações às vezes irreversíveis. Sem contar com a importância do rastreamento da hipertensão e do diabetes, que tendem a ser silenciosas no início, quando ainda podem ser manejadas com novos hábitos e reeducação alimentar.

O fato é que o governo acerta com iniciativas como a do Novembro Azul, por exemplo, porém não pode justificar o injustificável com colocações retrógradas como a de Ricardo Barros… São urgentes, sim, ações educativas e a criação de centros especializados em saúde integral masculina. É que, na verdade, agora o homem tornou-se o sexo frágil.


Fonte: Diário de Pernambuco

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