Últimas

José Paulo Cavalcanti Filho: A voz do morto

Por José Paulo Cavalcanti Filho

Jurista e membro da Academia Pernambucana de Letras

“Cada palavra dita é a voz de um morto”, escreveu Fernando Pessoa. O que nos remete à primeira regra da cavalaria ibérica – aquela que recomenda cessar a peleja quando o combatente já não pode se defender. Em casos assim, o silêncio é elegância obrigatória. Não foi o que se deu, poucos dias faz. Volta ao palco um concurso de cátedra realizado em 1959. Entre o querido mestre Paulo Freire e nossa confreira, na Academia Pernambucana de Letras, a professora Maria do Carmo Tavares de Miranda. Como ela já não está entre nós, sinto-me obrigado a fazer sua defesa.

A versão nova dá tom político a esse concurso. Opondo educação laica e religiosa. Algo que não faz sentido. Pior é que esse vício está virando praga. Agora mesmo, por exemplo, uma filósofa paulista defende a tese de que o Juiz Sérgio Moro foi treinado pela CIA. Para entregar o pré-sal às multinacionais do petróleo. A mesma que, em vídeo famoso, diz ter “horror à classe média”. Já eu tenho horror a quem vê a realidade só a partir de suas ideologias. Por ser prática ruim. Esquecendo outros valores. Entre os quais a ética. Em que crimes comuns, como o de corrupção, acabam absolvidos (ou relativizados) na compreensão de que tudo se deu por boa causa. Como se os fins justificassem quaisquer meios. Quase como se roubar para enriquecer fosse pecado e roubar para o partido uma virtude.

Disputava-se a cátedra de História e Filosofia da Educação. Na hoje Universidade Federal de Pernambuco. Uma concorrente era Maria do Carmo Tavares de Miranda. Com doutorado em Filosofia na Sorbonne – talvez, por isso, Gilberto Freyre a chamasse de A filósofa de Paris. E pós-doutorado em Freiburg (im Breisgau, Alemanha). Membro de numerosas entidades internacionais – como a Sociedade Interamericana de Filosofia ou a Academia Internacional de Filosofia de Arte, em Atenas (Grécia), da qual era vice-presidente. Foi professora visitante em numerosas universidades estrangeiras. E assistente, na Alemanha, do enorme filósofo alemão Martin Heidegger. Um ano depois de sua morte, Maria do Carmo publicou Sobre o comando do campo de Martin Heidegger. Tendo ainda traduzido dele, para o português, Da Experiência do Pensar. Só para lembrar, a professora traduzia 8 idiomas – entre os quais grego, latim, aramaico e hebraico.

O outro era Paulo Freire – ainda jovem, com pouco mais de 30 anos, e já uma presença estelar. Pouco depois, em 1969, eu estudava fora. Atendendo pedido gentil (não tanto) de nossos militares. E decidimos, um grupo de estudantes latino-americano, ir até Washington. Onde ele estava exilado. Para conhecê-lo. Foi um dia glorioso. Lembro que ficou preocupado quando soube que o governo militar começava a ensinar, por aqui, Moral e Cívica. Porque, nos disse, “toda dominação começa com a educação”. No fim, sorteou conosco um pequeno elefante africano talhado em madeira. Lamento não ter ganho.

Todo concurso público compreende provas e títulos. Ganha (quase sempre) quem está mais preparado. Mas o que ocorreu?, então. Segundo Dimas Brasileiro Veras (em Sociabilidades Letradas no Recife), “As referências são unânimes em ressaltar que a prova didática contribuiu para o insucesso de Paulo Freire… Os relatos são inúmeros em ressaltar a retórica e a erudição da professora”. Nada sugerindo qualquer favorecimento. Nem preferências políticas. Em resumo, não é preciso arranhar a memória de Maria do Carmo (uma “desconhecida”) para elogiar Paulo Freire. Pessoa especial, e de quem tanto nos orgulhamos, Freire certamente dispensaria, em casos como esse, que lhe fossem dados méritos além daqueles que já tem.


Fonte: Diário de Pernambuco

Deixe seu comentário

Comentários via Facebook