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Maurício Rands: A abertura da Olimpíada e os contrastes nacionais

Por Maurício Rands
Advogado, PhD pela Universidade de Oxford e professor de Direito da UFPE

O sucesso da cerimônia de abertura dos Jogos nos encheu de orgulho. Prevaleceram a criatividade, a alegria e a capacidade de superação do brasileiro. Atributos de que tanto se ressente uma humanidade hoje envolta em crises humanitárias, violência  terrorista e intolerância xenófoba. Ali estavam nossa cultura e nosso jeito de tentar ser feliz. O senso ético da mensagem sobre a diversidade cultural, a consciência ambiental e o espírito de tolerância revelado no desfile inédito da delegação de atletas refugiados. Os anéis olímpicos feitos por árvores levaram ao mundo nossa mensagem pela salvação ambiental do planeta, contrastando com o fogo dos anéis na Olimpíada de Londres. Ao som da Aquarela do Brasil, de Ary Barroso, assistimos a ‘uma celebração do melhor que o Brasil deu ao mundo’, como manchetou o diário espanhol El País.

Significativa a homenagem aos povos indígenas, africanos, europeus, árabes e orientais que marcaram a formação da civilização brasileira. Que bonito assistir, num único show, ao desfile da nossa melhor expressão artística. Paulinho da Viola, como Fafá, fazendo mais  belo nosso hino. Caetano, Gil e Anitta mostrando o ecletismo da boa arte. Zeca Pagodinho e Marcelo D2 com o pagode e o rap. Jorge Ben Jor, com nosso hino nacional dançante. O hip hop, as danças regionais, como o maracatu, a capoeira e o bumba meu boi. A afirmação do poder da mulher ao som da voz de Elza Soares,  do funk de Ludmila e do rap de Mc Sofia e Carol Conka. Todos os ritmos: da bossa nova ao funk. Quem não gostou de ver Gisele desfilando ao som da bossa-nova como ‘garota de Ipanema’? Top model à brasileira: mais cheinha, menos esquelética. Gisele retratando melhor a beleza da mulher brasileira, com as curvas que inspiraram Niemeyer, segundo o próprio.  Ficamos de alma lavada com os resgates de Santos Dumont, ignorado nos museus do 1º mundo, e de Wanderley Cordeiro, injustiçado na Olimpíada de Atenas.

Mostrou-se que a diversidade étnica produziu um povo bonito, alegre e batalhador. A civilização brasileira dos trópicos, decantada por Gilberto Freyre e Darcy Ribeiro, em seu esplendor. Por um momento, o Brasil esqueceu suas mazelas. O jeitinho brasileiro, a corrupção, a injustiça social, o desemprego, a quebradeira de empresas, a violência, a rudeza do dia a dia, o desrespeito ao direito ao silêncio alheio, a sujeira, a falta de zelo pelos equipamentos públicos. O contraste entre o Brasil mostrado na cerimônia e o Brasil dessas  mazelas deixa-nos uma grande inquietação. Imagina-se como esse poderia ser um país delicioso de se viver caso atenuássemos esses insuportáveis defeitos. Como superar o contraste entre a potencialidade criativa do nosso povo e a disfuncionalidade de nossas instituições, especialmente as políticas?

Um país capaz de produzir ao mesmo tempo um Galvão e uma Regina Casé. E de colocá-los protagonistas de um mesmo evento. Galvão com seu ufanismo babaca e estridente contrastando com o patriotismo lúcido e generoso de Regina (‘chega de briga! a gente está aqui hoje para buscar as nossas semelhanças e, principalmente, para celebrar as nossas diferenças!’). Como se ela nos alertasse de que só poderíamos ser aquela nação que a cerimônia tentou retratar se combatêssemos nossos defeitos. Se eliminássemos a intolerância e se respeitássemos as diferenças de um povo de composição tão diversa como o brasileiro.


Fonte: Diário de Pernambuco

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