Maurício Rands: Eduardo Campos – Um legado pernambucano

Por Maurício Rands

Advogado, PhD pela Universidade de Oxford e professor de Direito da UFPE

 

Na comemoração dos seus 80 anos, Dr. Ferreira, o pai de Patrícia, contou-nos que, para ele, o mais difícil do envelhecer eram as notícias das perdas dos amigos. De lá pra cá, já pude comprovar o seu acerto. Perdas ainda mais sentidas quando são precoces, como foram as de Raimundo Rands, Morse Lyra, Mossoró,  Gentil Mendonça, Amaro Gantois, Geraldo Nóbrega, Isabel Cristina e tantos amigos queridos. Paro por aqui ou aumentarei as injustiças das omissões. Agora, dois anos passados da partida de Eduardo, recordo um outro amigo.

Do seu legado, estão bem presentes as qualidades de político e de gestor que resgataram a projeção que Pernambuco sempre teve desde o Império, quando o pernambucano Araújo Lima, o Marquês de Olinda, presidiu por duas vezes o Conselho de Ministros de Pedro II. Na campanha presidencial de 2014, vi cenas que gostaria de compartilhar. Reuniões com lideranças dos movimentos sociais, do empresariado e da academia. Eduardo ouvia muito, porque sabia que assim se aprende. Quando falava, atraía o reconhecimento de paulistas, cariocas, mineiros e gaúchos sobre a competência desse pernambucano que chegava mostrando conhecimento tão profundo dos problemas nacionais. Logo percebiam que, em sua altivez sem arrogância,  aquele candidato nordestino estava propondo o de que o país mais necessitava. A superação de um modo de governar e fazer política que o país já não suportava. Uma mudança proposta por um caminho realista e viável. Por quem sabia fazer o jogo duro da política e nela crescera. Mas que antevia que o modelo estava esgotado. Por isso, assumira todos os riscos de se reinventar e se lançar à presidencial.  

Eduardo ousou muito quando fez a aliança com Marina.  Num desses momentos de rara coincidência, eu acabara de voltar do exterior e estava com ele no preciso momento em que meu amigo Walter Feldman telefonou comunicando a decisão de Marina e da Rede de apoiá-lo. Única condição: que a aliança fosse programática. Lembro bem seu comentário. ‘Parece que estamos mais perto de colocar a mão na taça. O desafio é o que fazer com ela…’. Compromisso assumido e cumprido. Neca Setúbal e eu, coordenadores do programa de governo, organizamos uma sucessão de oficinas com os maiores especialistas de cada área. Impressionava a disciplina de Eduardo e Marina de a tudo presenciar, ouvir e anotar. Diferentes do candidato convencional que, nesse tipo de evento, chega só para as fotos. Ou que nem tem coragem de lançar um programa.

Um outro traço de sua personalidade com a qual sempre me identifiquei. Eduardo sabia que, para ser um político genuíno, era preciso gostar de gente. Sobretudo para um político de esquerda, como ele. Não por regra técnica do ofício, ele adorava estar ao lado das pessoas. De gente de todos os tipos, credos e meios sociais. Na esteira do seu avô Miguel Arraes, emocionava-se de verdade com encontros especiais com personagens do nosso povo. Daí vinha o apreço que até hoje lhe devotam as pessoas comuns, não contaminadas pelas disputas e invejas da política. As pessoas simples sentiam que a atenção dada pelo governador, ministro ou candidato não era daquelas para gravar cenas do guia eleitoral. Aliás, sei que o contato com as pessoas comuns e com os militantes anônimos, eram-lhe os mais gratificantes. Como disse a Renata, logo que a reencontrei voltando de Santos. ‘Nosso consolo é que ele partiu em um momento em que estava tranquilo, com a sensação de uma missão cumprida e com o coração e a mente cheios de futuro’. Acabara de passar no teste do Jornal Nacional, que o estava fazendo conhecido. Sabia que, se os eleitores o conhecessem e as suas propostas, meio caminho teria sido andado. Faltavam os debates que deixariam Aécio e Dilma em maus lençóis.


Fonte: Diário de Pernambuco

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