Raimundo Carrero: Personagens iluminam personagens em Gilvan Lemos

Por Raimundo Carrero
Escritor e jornalista

Personagens inquietos, magoados com o mundo, silenciosos e aflitos marcam a prosa de Gilvan Lemos, sobretudo na estreia com “Noturno sem música” em que Jonas lança inquietações em todas as páginas. Para torná-lo vivo e forte, o autor lança mão de outros personagens que, pouco a pouco, episódio a episódio, iluminam – para usar uma expressão de Henry James – o jovem que chora a aflitiva paixão ao longo das páginas deste denso romance pernambucano ainda reclamando justa atenção da crítica nacional.

Na Teoria da Iluminação, James demonstra que os gestos, as palavras, as ações dos personagens devem enriquecer o protagonista em torno da atmosfera, do clima que o levará a seduzir o leitor. Em Noturno sem Música é assim, mesmo considerando que Gilvan nunca se preocupou com técnicas ou com estratégias narrativas. Nele a ficção aflorava inteira, com as atmosferas e sinuosidades. Gilvan aprendeu com a leitura dos grandes autores. Com Stendhal, na sugestão de Osman Lins. A verdade, “O Vermelho e o Negro” teria sido um texto-escola para o autor deste belo romance, impregnado de solidão e aflição. Ou pode ter sido, mas nunca ouvi dele qualquer coisa assim.

Basta perceber uma cena aparentemente convencional para que se observe como  a personagem Marta ilumina a trajetória de Jonas, sem que pareça ter, naquela situação, qualquer ligação entre ambos: “Marta onipresente cantarolando a música que saía do rádio, fazendo recomendações a empregadas, aprumando o pano da mesinha de centro, passando as páginas da revista…” O chamado crítico exigente poderia reclamar do excesso de gerúndios. Bobagem, o gerúndio é uma conquista da prosa brasileira, que concede à frase um tom de ternura e afeto que o infinitivo luso a cantarolar, a fazer, não alcança.

Mas a palavra secreta, a palavra mágica que concede à frase um tom de afetividade, de intimidade é “onipresente”. Nesta mínima palavra, nesse instante de leveza, encontra-se  o encanto da frase que “ilumina”, que “revela” a personagem porque sem que se diga, sem que se imponha, o olhar de Jonas se apresenta na cena. Este é o mistério do autor através do narrador que não é nem deve ser o autor, mas que é, afinal a sua “consciência”.  

Outra coisa definitiva: Procurem conhecer a obra de Gilvan Lemos através dos romances que estão sendo reeditados pela Cepe – Companhia Editora de Pernambuco: Noturno sem Música, Jutaí Menino, Emissários do Diabo e O Anjo do Quarto Dia.


Fonte: Diário de Pernambuco

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