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Raimundo Carrero: Personagens que, afinal, encontram o seu autor

Por Raimundo Carrero 

Escritor e jornalista

raimundocarrero@gmail.com

Os personagens estão em todos os lugares. Nas repartições públicas, nas salas de aula, andando nas ruas ou vivendo a solidão de apartamentos, casarões e sobrados. Ou frequentando escritórios de advogados. E, um desses escritórios, pertence ao escritor José Paulo Cavalcanti Filho, que os reúne em livro de contos –  Somente a verdade -, agora pela Editora Record, a ser lançado logo. O que é um feito notável, porque não se trata de um escritor qualquer, mas de um criador de grande habilidade, com vocação para histórias exemplares.

Aliás, vem de Cervantes, um dos autores mais admirados por este escritor, a possibilidade de um título fantástico: Novelas exemplares. Este livro do autor pernambucano poderia, por exemplo, ter este mesmo título, embora já muito usado no Brasil. Para evitar aproximações, o título foi descartado, e o livro chega até nós com este achado: Somente a verdade. O que pode sugerir, imediatamente, um livro de vanguarda, com recursos linguísticos.

Zé Paulo, porém, opta pela história e pela força dos seus personagens, que desfilam cheios de vida, mesmo quando a vida é uma aventura e prepara intrigas inquietantes. Às vezes risíveis. É verdade que existem sugestões técnicas bem claras e objetivas. Trata-se, por exemplo, do diálogo interno com recurso dos sinais gráficos, o que não é muito comum nas narrativas abertas com destaque para os personagens. Nestas narrativas, é frequente o recurso do diálogo aberto com o uso dos dois pontos e travessão, além do verbo dicendi e das longas marcações de fala.

Com gestos, atitudes e movimentos. Neste livro , o autor opta pelos sinais gráficos, com breves comentários do narrador. O que não caracteriza marcação de fala.

Veja-se, por exemplo, a página 24: “Para Marcelo, susto grande. Quase como se levasse um murro. Norma sempre fora generosa em tudo. Só que agora tinha mulher no meio. E o cenário, nesse caso, é diferente. Sobretudo se for algo público. Ou puder vir a ser. Pensou com calma e respondeu: “Quero não, você é a mulher da minha vida. A outra foi aventura de uma noite. E Norma, inflexível: “Fica não, pode ir embora desta casa.” Aí já era demais. “Minha filha, já disse que gosto de você. E que quero ficar. Mas, por favor, não me mande embora de novo que vou mesmo.” E, Norma, tranquila, ou parecendo tranquila: “Pelo amor de Deus, faça o que lhe pedi.” Marcelo arrumou as roupas que cabiam numa valise, o necessário para os primeiros dias, e foi mesmo. Sem esperar pelo dia seguinte. Acabou a noite na casa da mãe do menino e essa mãe gostou do arranjo.”

A vantagem desta técnica de diálogo é que o leitor não interrompe o fluxo narrativo e o texto segue num jato só. Coisa que pode ser visto em todo o livro.  


Fonte: Diário de Pernambuco

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