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Wilton Marques da Silva: O preconceito como herança

Por Wilton Marques da Silva
Aluno do Ensino Médio (Erem) Engenheiro Lauro Diniz

A marginalização dos escravos, após a abolição da escravatura, apresenta resquícios atuais. Sabemos que a maioria das pessoas humildes, sem condições educacionais favoráveis, são de favelas, prevalecendo negros, os quais guardam uma herança do passado. Das senzalas à favela, a forma mais acessível para ascender socialmente é pela educação. A entrada de um jovem, oriundo de uma escola pública, em uma instituição de ensino superior, pelo sistema de cotas, tem gerado bastante polêmica.

O sistema educacional público brasileiro não proporciona grandes chances do indivíduo pobre, negro e sem recursos financeiros de ingressar numa instituição de ensino superior. Afirmo isso, pois vivo em uma favela onde as chances de ascender socialmente são poucas e a base escolar, dos meus amigos alunos da escola pública, para o vestibular é mínima. Ademais, o governo prioriza números e a escola torna-se uma indústria de notas, aprovando alunos sem merecimento.

As cotas já existem desde 1968 (lei do boi que beneficiava os filhos de produtores rurais), entretanto, na prática, beneficiava apenas os filhos dos grandes proprietários e não dos reais trabalhadores, o que, na época, diferente de hoje, nunca gerou contestações por parte da nossa burguesia. Pelo lado dos indivíduos contrários à lei, ressaltam a inconstitucionalidade dela, pois, como está descrito no artigo 5º, todos somos iguais, sem qualquer distinção de natureza.

Todavia, no outro lado da questão, sou favorável ao sistema de cotas, uma vez que foram 364 anos de escravidão, não podendo ser negado que, pós-abolição, os negros ficaram sem recursos para se adaptarem e crescerem em meio a uma sociedade enraizada de preconceito. Atualmente, vemos, em cada nova pesquisa, que a grande maioria dos negros estão em favelas e em escolas públicas de periferia. Eles sofrem com o racismo todos os dias por serem estereotipados por vezes como seres de má índole.

Algumas pessoas ainda indagam que o indivíduo, ao entrar com cotas raciais, não tem a capacidade de acompanhar o ritmo dos não cotistas, podendo assim baixar o nível da faculdade. Porém, em uma matéria publicada no jornal Estado de São Paulo, em 2010, A Universidade do estado do Rio de Janeiro (Uerj) e a Universidade de Campinas (Unicamp) constataram que isso é uma falácia, mostrando muitas vezes um desempenho maior de alunos cotistas. Essa pesquisa revelou, ainda, que desde que foi implantado o sistema de cotas, o índice de reprovações e a taxa de evasão permaneceram menores entre os beneficiados. Além disso, a média dos cotistas é maior, denotando um melhor desempenho dos alunos em 31 dos 56 cursos, disponibilizados pela Unicamp.

Portanto, é necessário que a mídia apresente sempre cada vez mais dados relacionados às vantagens às quais o sistema de cotas raciais traz. Além disso, para que o processo de igualdade entre as classes seja mais rápido, a instituição de ensino público desde o primário deve ser reestruturada com ensino da melhor qualidade, propiciando, assim, uma maior evolução por parte das classes mais pobres. Segundo Joaquim Barbosa, ex-ministro do STF: “As cotas visam combater não somente manifestações flagrantes de discriminação, mas a discriminação de fato, que é a absolutamente enraizada na sociedade e, de tão enraizada, as pessoas não a percebem.”. As ações afirmativas são uma etapa do nosso país. Nessas, todos devem ter a opção de escolher o que querem ser, sem serem apontados ou estereotipados.


Fonte: Diário de Pernambuco

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