Artigo: Um dia no posto de gasolina por Fernando Moura Peixoto

A gasolina é o incenso da civilização.”

– RAMÓN GÓMEZ DE LA SERNA (1888 – 1963), ‘Greguerias’, 1917.

O movimento operacional de um grande posto de abastecimento de combustíveis – gasolina, diesel e etanol – para veículos motorizados, 18 horas ao dia. Situado na Rua São João Batista, 73, esquina com Mena Barreto, no bairro de Botafogo, zona sul do Rio de Janeiro, o Posto Galina existe desde a década de 1970. Reformado e reinaugurado em 2010, transformou-se em moderno autocentro ecoeficiente – “novos ares, novos rumos”.

Local de intensa movimentação e constituindo-se em um verdadeiro microcosmo da cidade, um posto de gasolina envolve tipos curiosos e fatos marcantes. Foram registros diurnos e noturnos, efetuados entre 2011 e 2014, que retratam funcionários e viajores diários – motoristas, motoqueiros, ciclistas, transeuntes -, toda uma gama de pessoas chegando e saindo, consumidores em geral. E ainda a loja de conveniência em seu interior: clientes e atendentes da lanchonete, comestíveis, bebidas e uma diversidade imensa de produtos oferecidos ao público.

Construíram-se os precursores dos postos de gasolina nos Estados Unidos, no ano de 1907, em Seattle, cidade portuária de Washington, e em Saint-Louis, no Missouri, em virtude da grande demanda por abastecimento decorrente da popularização dos automóveis, graças à produção massificada das fábricas de Henry Ford.

Na América do Sul, uma pioneira bomba de gasolina foi instalada em 1919, no Brasil, em Santos, no estado de São Paulo. Ficava na Avenida Ana Costa, esquina com a praia. A iniciativa coube ao empresário Antônio Duarte Moreira, em concessão da Prefeitura, para suprir a sua frota de táxis, o primeiro serviço santista de transporte em veículos a motor. Com o tempo, A.D. Moreira colocou outras bombas naquela urbe litorânea.

O primeiro posto de serviços Atlantic em Santos surgiu na década de 1930. De lá para cá, muita água, ou melhor, combustível, rolou. E também muito sangue, suor e lágrimas para a obtenção do precioso líquido escuro, o chamado ‘ouro negro’, o petróleo, afortunando uns e infortunando outros.

Esse produto é o sangue da terra; é a alma da indústria moderna; é a eficiência do poder militar; é a soberania; é a dominação. Tê-lo é ter o sésamo abridor de todas as portas. Não tê-lo é ser escravo.”

– MONTEIRO LOBATO (1882 – 1948), ‘O Escândalo do Petróleo’, 1936.

Perfurado no ano de 1859 em Titusville, na Pensilvânia, nas margens do Oil Creek River (um tributário do Ohio River), o primeiro poço de petróleo motivou uma desenfreada busca ao ouro negro e a um enriquecimento fácil no cognominado ‘OilDorado’.

Tido como o homem mais rico do planeta, o empresário John Davison Rockefeller (1839 – 1937), magnata da indústria de óleo e gás – a Standard Oil –, foi o responsável pelo apuramento de 80% do petróleo mundial. Na segunda metade do século 19, utilizando-se de meios pouco ortodoxos, conseguiu colocar ordem na desorganizada exploração petrolífera, adquirindo e destroçando a concorrência.

Um poderoso monopólio – contabilizava ainda poços próprios e postos de abastecimento – que derrubou sucessivas tentativas de regulamentação do governo e da Justiça norte-americanos. E a ausência de regulação do mercado de combustíveis acarreta danos ambientais e preços extorsivos nas bombas dos postos de gasolina, onerando o bolso dos consumidores finais.

Uma curiosidade: subproduto do petróleo, a gasolina era um refino surgido para a consecução do querosene. E usada como tópico medicamento de extermínio aos piolhos. Em 1800 apareceu o termo ‘gasolina’, como uma marca, que iria se transformar em sinônimo do produto, bem como ocorreu com ‘chicletes’ e ‘vaselina’.

No início do século 20, com a evolução de um novo e revolucionário meio de transporte, a gasolina popularizou-se como combustível, pois os motores dos automóveis demandavam uma quantidade enorme de petróleo.

Venceste as máquinas / – não o homem – / mas tua fluência / ainda não conseguiu / lubrificar a consciência / sem amor / e sem calor / dos teus senhores.”

– SYLVIO DE OLIVEIRA (1916 – s/d), ‘O Caos e o Cosmo’, 1983.

Na banda sonora uma surpreendente ‘Day Tripper’, de John Lennon (1940 – 1980) e Paul McCartney, interpretada pelo acriano Chico Chagas, arranjo e acordeão; Carlos Malta, sax barítono; Leonardo Amoedo, guitarra; Jorge Helder, baixo; Jurim Moreira, bateria; João Hermeto, percussão, e Fábio Luna, zabumba.

Texto e imagem: Fernando Moura Peixoto (ABI 0952-C)

Um Dia no Posto de Gasolina (A Day At The Gas Station)

Meu vídeo: http://youtu.be/AILMVqQ7TS0

Comentaram:

Prezado Jornalista Fernando Moura Peixoto. Grato pelo vídeo que produziu sobre o cotidiano no posto de gasolina em Botafogo, fotografando nuances dos trabalhadores e circunstantes. Abraços.” HELIO BEGLIOMINI, médico, literato e acadêmico, Tremembé, SP.

Oi, Fernando! ‘Não tê-lo [o petróleo] é ser escravo… ’. É isso mesmo! MARIA JOSÉ DOS SANTOS PEIXOTO, assistente social, Rio de Janeiro, RJ.

Fernando. Mais um descontraído documento. Obrigado.” RICARDO TACUCHIAN, músico, maestro e compositor, Rio de Janeiro, RJ.

Muito interessante, Fernando. Abraços.” RICARDO CRAVO ALBIN, escritor, musicólogo, pesquisador e acadêmico, Rio de Janeiro, RJ.

Sou um cliente satisfeito, o posto é estrategicamente bem situado e com bom atendimento. Sua loja de conveniência, multicoisas, é um bom motivo para voltar. Encha o tanque, por favor. Preciso me abastecer.” ABILIO FERNANDES, escritor, teatrólogo, compositor e humorista, Rio de Janeiro, RJ.

Fernando Moura Peixoto, mestre das palavras coladas a imagens comoventes, excitantes, nostálgicas e, ao mesmo tempo, instigadoras do nosso inconsciente coletivo, nos presenteia com mais um suave caleidoscópio de memórias.

Quem, entre nós, nunca gostou de sentir o cheirinho de gasolina quando o funcionário do posto está abastecendo, principalmente crianças, como foi meu caso e é até hoje?

Quem nunca deu risadas ao lado da namorada quando o carrão, o possante, abastece e o ‘moleque’ joga água e aproveita para limpar o para-brisa?

Fernando, você está sendo uma espécie de agente da felicidade, saúde e memórias coletivas perdidas, que voltaram com seus documentários.” CARLOS BILL, músico e jornalista, Rio de Janeiro, RJ.

Fernando, ótimas informações! Você sempre contando histórias interessantes. Parabéns!” MARIA INÊS GALVÃO, escritora e jornalista, Rio de Janeiro, RJ.

Excelente… Indubitavelmente você está no rumo certo.” MAURO PEREIRA DE LIMA CAMARA, literato e acadêmico, Rio de Janeiro, RJ.

Caro Fernando. Mais um ótimo documento histórico sobre o bairro de Botafogo. Parabéns. Abraços.” LAURO GOMES PINTO, radialista, produtor musical e teatrólogo, Rio de Janeiro, RJ.

Botafogo, paraíso dos postos de gasolina.” CARLOS ALBERTO RIBEIRO BASTOS, jornalista, Rio de Janeiro, RJ.

Fernando. Maravilhoso seu texto. Poucos retratam o cotidiano de forma poética numa narrativa deliciosa, como você. Uma alegria ler suas crônicas. Você escreve divinamente!” DIANA GALVÃO PEIXOTO, escritora e jornalista, Rio de Janeiro, RJ.

Obrigado”. CÉSAR MAIA, economista e político, Rio de Janeiro, RJ.

Fernando, li e gostei da forma que relata fatos do cotidiano, porém sem nunca percebemos a história ou histórias que existiram por trás dos acontecimentos. A situação presente tão bem marcada e a apresentação de fatos por vezes desconhecidos por nós são decifradas pelo seu senso de pesquisa e norteia com precisão o que há de guardado no recôndito de nossas lembranças. Obrigado pelas lembranças que me despertaram o seu texto. Abração.” MARCELO FRANCISCO, cantor, Rio de Janeiro, RJ.

Crônica deliciosa e cheia de informações pertinentes e valiosas. Também nos trazendo, como ‘cereja do bolo’, o sempre necessário e atual Monteiro Lobato. Parabéns Fernando!” FLAVIO JOZEF, psiquiatra forense, Rio de Janeiro, RJ.

Fernando, um belo texto. Continue escrevendo sempre.” TERESA CRISTINA DE MOURA PEIXOTO, psicanalista, Brasília, DF.

Muito legal! Beijos, querido!” MARIA LÚCIA DAHL, atriz, escritora e jornalista, Rio de Janeiro, RJ.

Hoje, após ler tua matéria, percebi que um posto de gasolina pode ser bem mais que um mero posto de gasolina. 

Quando registras o número enorme de pessoas que lá chegam e que de lá saem, imediatamente lembrei- me da letra da música de Milton Nascimento – ‘Chegadas e Partidas’. Percebi, então, que também um posto pode ser comparado a plataforma de uma estação, aonde os trens chegam e partem a todo momento. 

Pois é… Me fazes sentir um certo romantismo no vai e vem dos carros que ali param para abastecer. Agora, comparo-os com a própria vida. 

Obrigada, Fernando, por esse novo olhar que adquiri lendo tua matéria. Abraços.” LÚCIA SENNA, cronista e cantora, Rio de Janeiro, RJ.


 

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