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Candidatos homossexuais têm o desafio de romper barreiras

"Maradona" (PSDB) transformou os traumas da inf
“Maradona” (PSDB) transformou os traumas da infncia e adolescncia em bandeira para sua candidatura Cmara de Vereadores de Paulista. Foto: Peu Ricardo/ Esp.DP

 

A voz rouca e o “jeito diferente” foram os responsáveis por abrir as portas do submundo a Iran Ferreira, de 40 anos, conhecida na comunidade de Arthur Lundgreen II como “Maradona”. Com a morte da mãe, aos 9 anos, foi expulsa de casa pelos irmãos em um ato extremo de intolerância: eles achavam que ela tinha traços homossexuais e não admitiam esse “desvio” na família. Ao deixar a casa, no bairro de Cajueiro, no Recife, Maradona ganhou as ruas, foi mendigar e encontrou um “cantinho”, como gosta de dizer, na feira de Paulista, onde conheceu sua mãe adotiva aos 11 anos e, paralelamente, tornou-se uma liderança entre os feirantes. Os traumas da infância e adolescência ficaram como lição e se transformaram em bandeira para sua candidatura à Câmara de Vereadores de Paulista. Maradona, que é filiada ao PSDB, não está sozinha e faz parte de uma nova leva ligada ao público de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transgêneros (LGBT) que disputarão cargos políticos em Pernambuco nestas eleições.

“Por eu ter passado por isso, sei que é preciso discutir o gênero das pessoas. É preciso criar centro de reabilitação. Há muitas pessoas nas ruas vítimas de preconceito. Não são apenas os travestis que passam por isso”, diz Maradona, que entrou na política no ano de 2000 para fazer oposição ao então candidato e eleito prefeito de Paulista Antônio Speck. Sua plataforma ainda trata de melhores condições de trabalho para os feirantes e para a sua comunidade. É uma candidatura diferente, se pensarmos que, há décadas atrás, como no regime militar (1964-1985) homossexuais eram perseguidos pela polícia, inclusive, com anúncios em jornais pedindo para não circularem em festas, como o carnaval.

A pauta LGBT vem ganhando força, em parte, motivada por frentes voltadas para o segmento criadas pelos próprios partidos. Legendas como o PSB, PSDB e PT, por exemplo, possuem lideranças ativas nesse sentido, apesar de críticas de especialistas, como a do historiador Maciel Henrique Silva, de que esses espaços podem criar “guetos” e restringir a participação desses grupos na vida partidária.

Líder da frente LGBT do PSB, o fotógrafo Rafael Nicéas, de 29 anos, é contra a concepção de “gueto”, mas reconhece que, no partido, há dificuldade com parlamentares religiosos, sobretudo os que engrossam a bancada evangélica. “No partido, existem pessoas que estão, mas não são da legenda. Mas o que é importante é que nós temos o apoio e o cuidado exemplar das executivas estadual e nacional do PSB, é uma política permanente do partido”, defende.

Formado em relações internacionais, Lucas Barros, de 30 anos, é o líder da frente LGBT do PSDB. O tucano diz que não tem interesse em ser candidato e diz que políticos e candidatos que não sejam homossexuais podem, sim, defender a pauta do segmento. “Infelizmente, quando há uma pauta sobre o segmento nas câmaras, muitos políticos avaliam como privilégios. O que não é”, frisa. O debate sobre não homossexuais que defendem a pauta gay é complexo. “Claro que quem é sabe com mais propriedade a realidade e o preconceito”, avalia. No estado, o deputado estadual Edilson Silva (PSol), que lidera a Comissão de Direitos Humanos, diz publicamente que tem uma filha homossexual e apoia a causa do movimento. Tanto é que contratou, recentemente, a primeira transexual nos 181 anos da Assembleia Legislativa de Pernambuco, a psicóloga Fabianna Melo, de 36 anos.

Outros casos também servem como exemplo. No Recife, a empresária Maria do Céu, conhecida por ser a proprietária da boate GLS Metrópole, apesar de heterossexual, deve disputar uma vaga pelo PPS à Câmara do Recife. Os partidos, no entanto, não fazem as contas de quais políticos são ou não homossexuais. Alguns, inclusive, declararam à reportagem que é “constrangedor” fazer esse tipo de pergunta aos filiados. De qualquer forma, o estado de Pernambuco não tem qualquer deputado estadual ou federal assumidamente homossexual, transexual ou trangênero. A exceção são em câmaras de vereadores no interior, como é o caso de Jajá (sem partido), em Caruaru. Em Brasília, há apenas o deputado federal Jean Wyllys (PSol-RJ), conhecido por travar embates com a bancada evangélica. “Ele vem se destacando pela presença e por ser único. É preciso mais para tirar esse peso das costas dele…”, diz Maciel Henrique Silva.


Fonte: Diário de Pernambuco

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