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Capivaras viram foco de polêmica por causa de morte de febre maculosa em Belo Horizonte

Futuro de roedores ser
Futuro de roedores ser debatido hoje por representantes de pelo menos oito rgos e j ocupa at o Judicirio Federal. Foto: Gladyston Rodrigues/EM/D.A.Press

Um problema urbano, um desafio para a saúde pública, uma batalha judicial e uma controvérsia entre especialistas, tudo concentrado em uma única espécie de animal: as capivaras da Pampulha. Depois que a contaminação por febre maculosa matou uma criança de 10 anos em Belo Horizonte, intensificou-se a polêmica em relação ao destino dos animais, hospedeiros da bactéria que causa a doença e do carrapato que a transmite. O futuro dos roedores deve ser debatido hoje em reunião no Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), na capital, e o tamanho da lista de convidados dá a dimensão não só da gravidade da questão, como da dificuldade de solucioná-la. Devem participar do encontro em busca de uma solução representantes das secretarias municipais de Saúde e do Meio Ambiente, da Fundação Zoo Botânica, do Corpo de Bombeiros, da Defesa Civil Municipal, da Polícia Militar do Meio Ambiente e do Ministério Público estadual.

O temor é tanto que já há relatos de pessoas atacando capivaras, assim como há quem apresente a proposta polêmica de que elas devem ser exterminadas. Enquanto isso, especialistas e ambientalistas defendem o controle da população de roedores e formas alternativas de combater o carrapato. Existe inclusive o argumento de que retirar os animais pode prejudicar a luta conta a febre maculosa. “Remover as capivaras da lagoa é um grande erro. Seria um tiro no pé”, defende o professor da Universidade Federal de Viçosa Tarcizio Antonio Rego de Paula, responsável por investigação científica no câmpus, que passou por infestação de carrapatos há quatro anos.

O professor explica que a retirada ou extermínio das capivaras não garante o fim do carrapato-estrela, que transmite a doença. Segundo ele, os roedores adultos são resistentes e refratários ao micro-organismo que causa a febre maculosa, pois, após se infectar, criam anticorpos naturais contra a doença. Nesse sentido, elas são consideradas “sentinelas”, constituindo barreiras naturais que impedem a propagação da bactéria. O maior risco é a infecção dos filhotes, que ainda não têm proteção de anticorpos.

O especialista lembra ainda que o transmissor da doença é o carrapato-estrela, que, na ausência dos roedores, poderá se hospedar em outros animais de convívio mais próximo com o ser humano, como cachorros, cavalos e até aves. Isso aumentaria o risco de epidemia de febre maculosa. Além disso, a remoção da população de capivaras deixaria o território livre para a chegada de outros bandos à Pampulha.

No câmpus de UFV, Tarcizio orientou trabalho de controle das capivaras e dos carrapatos. A população, então de 68 animais, se reduziu para quatro. As ações envolveram vasectomia dos machos e a ligadura das tubas uterinas das fêmeas. De forma paralela, foram usados cavalos, que eram colocados em diferentes pontos como “iscas” para os carrapatos. Depois, à noite, os animais eram tratados para o combate ao parasita. “Reduzimos as reclamações relativas a picadas de carrapatos, que eram constantes”, afirmou.

Desequilíbrio 

Outro que defende o manejo das capivaras na lagoa é o especialista em animais silvestres Leonardo Maciel, professor da PUC Minas. Ele também perga a esterilização dos animais adultos. “Elas vivem de 8 a 10 anos. Com a castração, o poder público terá esse tempo para controlar os carrapatos”, diz. Porém, o especialista condena a aplicação indiscriminada de inseticida ou carrapaticida. “Não é viável. Pode representar a morte de insetos, aves e a contaminação da água. Um completo desequilíbrio ecológico”, alerta.

O Movimento Mineiro pelo Direitos dos Animais também é contrário ao extermínio das capivaras. Adriana Araújo, umas das representantes do grupo, defende, além do controle reprodutivo, a implantação de chips nos animais, para que sejam monitorados. Outra medida importante, segundo ela, é a conscientização da população. “O cidadão que encontrar um carrapato no corpo tem que se dirigir a um posto de saúde ou hospital e avisar sobre a situação”, defende. A ambientalista ressalta que o carrapato-estrela é endêmico, ou seja, sua ocorrência é natural na região da Pampulha, e que a retirada das capivaras não eliminaria o parasita. “Seria um desperdício de dinheiro público e abriria espaço para outros grupos migrarem para a região”, afirma.

O debate sobre a situação dos animais na Pampulha já ocupa até a Justiça Federal. Depois de intervenção da prefeitura, que iniciou a retirada das capivaras da lagoa, o Ministério Público entrou com ação no Tribunal Regional Federal da 1ª Região, que concedeu liminar para que os roedores voltassem a ser soltos na orla. O processo seguiu para Brasília e ainda não houve análise do mérito.


Fonte: Diário de Pernambuco

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