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É preciso ter paciência com Tite em sua estreia: Seleção diferente encara rival complicado, freguesia e falta de tempo

Brasil encara Equador em Quito na primeira partida do novo treinador com algumas surpresas e muitos obstáculos

O cenário não é favorável. Nesta quinta-feira (01), Tite faz sua estreia no comando da Seleção Brasileira em um jogo oficial muito complicado. Fora de casa, o Brasil encara o Equador, em Quito, às 18h (de Brasília), pelas Eliminatórias Sul-americanas para a Copa do Mundo de 2018. Enquanto o escrete canarinho ocupa o sexto lugar, com nove pontos, e está fora da zona de classificação para o Mundial, El Tri está no segundo posto, com 13 unidades, mesma pontuação do líder Uruguai. Esse, porém, é apenas um dos vários obstáculos para o novo treinador da equipe tupiniquim em sua primeira partida na função.


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Depois do mistério nos primeiros dois dias, Tite deu uma ideia de qual deve ser o time titular contra o Equador. Como esperado, o Brasil jogará em um 4-1-4-1, com Casemiro como primeiro volante. Gabriel Jesus deve ser titular no ataque, atuando como 9, Neymar vai ficar aberto pela esquerda e Willian pela direita, com Renato Augusto e Paulinho mais centralizados, ajudando Casemiro na marcação e protegendo a defesa, mas também subindo ao ataque para criar jogadas e finalizar. Na linha de quatro defensiva, Marcelo volta a ser o dono da lateral-esquerda, com Marquinhos formando a dupla de zaga com Miranda.

É uma boa escalação. Jovem, já experiente na Seleção, excelente jogador, muito técnico tanto para marcar quanto na saída de bola e também veloz e bom nos desarmes, antecipações e roubadas de bola, Marquinhos é o melhor zagueiro para formar dupla com Miranda. Geromel é ótimo jogador, mas até pela primeira experiência, tem mesmo que começar no banco de reservas. Gil, por outro lado, sequer deveria ter sido convocado.

Um dos melhores do mundo no setor, Marcelo é a escolha óbvia para ser titular na lateral-esquerda. Concordo totalmente com a defesa de Tite e também a escalaria assim. No entanto, no meio-campo, discordo de alguns pontos. Além das ausências por lesão, como é o caso de Douglas Costa, convocaria outros jogadores e escalaria alguns como titulares. De qualquer forma, Casemiro, Willian e Neymar são incontestáveis e estão nas funções certas. No caso dos três, também faria as mesmas escolhas de Tite. Já Renato Augusto não é meu nome favorito. Teria feito outra escolha, mas ele certamente merece ser titular e é uma ótima opção: foi um monstro na Olimpíada jogando muita bola mesmo fora de sua posição, teve boas atuações pela Seleção principal mesmo no “time” bagunçado, sem padrão tático, de jogo e organização de Dunga, é bom jogador e tem a confiança do treinador, com quem já trabalhou e teve muito sucesso.

(Foto: Lucas Figueiredo / MoWA Press)

Paulinho, porém, é muito questionável. O volante tem feito bons jogos pelo Guangzhou Evergrande, líder da Chinese Super League, mas está longe de jogar um absurdo na China para justificar sua convocação. Existiam muitas opções melhores, já que vários volantes brasileiros estão jogando melhor futebol, em melhor nível técnico e tático e em times e ligas mais fortes e competitivas em todos os sentidos. Ele não deveria ter sido convocado, muito menos ser titular, mas existe uma explicação compreensível.

Tite, nitidamente, optou por Paulinho e Renato Augusto como titulares pela confiança e também pelo conhecimento e trabalho anterior. Os dois se destacaram e renderam muito bem com o treinador no Corinthians – justamente no esquema 4-1-4-1, que será usado contra o Equador, e ambos terão um posicionamento semelhante ao que tinham no Timão no mesmo sistema tático -, conhecem seu método de trabalho e o técnico sabe como melhor aproveitá-los tecnicamente e taticamente. Esses fatores somados ao pouquíssimo tempo que Tite teve para treinar e armar sua equipe e conhecer melhor seus convocados com certeza fazem diferença. Eu escalaria um time um pouco mais ofensivo e criativo, com Philippe Coutinho na vaga de Paulinho, mas entendo a escalação do treinador da Seleção.

(Foto: Pedro Martins / MoWA Press)

A falta de tempo, aliás, é um motivo que torna obrigatória uma maior paciência e calma com Tite em seu início de trabalho. Ele praticamente não teve tempo de trabalhar a equipe taticamente e fazer grandes mudanças. É claro que podemos ser surpreendidos, já que o treinador é inegavelmente muito qualificado, competente e preparado, mas é muito difícil vermos grandes transformações logo na primeira partida, ainda mais fora de casa contra um adversário complicado como é o Equador.

Acredito que com o tempo veremos uma Seleção com compactação e consistência defensiva, poucos espaços entre as linhas de marcação e muita movimentação, com um futebol ofensivo, envolvente, bonito e de posse de bola, que crie muitas chances de gol e finalize, mas também seja consistente na marcação e saiba variar entre a pressão na saída de bola do adversário e a marcação no campo de defesa, mas não creio que veremos isso nesta noite. Ainda é muito cedo e o comandante não teve o tempo necessário para fazer tantas mudanças. Tite tem muito talento e um material de qualidade à disposição para fazer um grande trabalho, mas é preciso ter calma e paciência. É preciso deixar a cultura do resultado acima de tudo e do imediatismo de lado.

Por conta disso e pela pressão para melhorar a situação nas Eliminatórias e obter melhores resultados, é que Tite armou um time um pouco mais cauteloso e com jogadores de sua confiança. O Brasil que o treinador escalou tem poder de fogo com o trio Neymar, Willian e Gabriel Jesus, e as chegadas de Renato Augusto, Paulinho, Daniel Alves e Marcelo, mas também força na marcação e uma defesa confiável, e pode ter mais consistência e organização. Tite não pode expor sua equipe desnecessariamente e correr o risco de uma grande derrota, e sabe que o empate, diante das circunstâncias, não é um resultado ruim.

(Foto: Pedro Martins / MoWA Press)

Afinal, além da falta de tempo para trabalhar e montar o time para sua estreia e as surpresas, o Brasil tem pela frente um rival muito complicado. O Equador não foi bem nas últimas duas rodadas das Eliminatórias, é verdade, empatou com o Paraguai em casa e perdeu para a Colômbia fora (esse, um resultado absolutamente normal), mas antes conseguiu quatro vitórias seguidas, inclusive um triunfo sobre a Argentina em Buenos Aires. Na Copa América Centenário, o desempenho também não foi muito animador, com a eliminação para os Estados Unidos nas quartas de final, mas na fase de grupos, por exemplo, El Tri só não venceu o Brasil porque a arbitragem aliviou e não validou o tento legal dos equatorianos em frango bizarro de Alisson.

Além disso, os equatorianos têm desfalques consideráveis, como o zagueiro titular Erazo e o ótimo meia Juan Cazares, que tem sido opção no banco. A dupla do Atlético-MG, lesionada, não foi convocada. Ainda assim, a equipe é muito boa, com destaque para o ataque. Caicedo, que está jogando muita bola, é o artilheiro das Eliminatórias com quatro gols, ao lado do paraguaio Lezcano, e El Tri tem o melhor ataque do torneio qualificatório, ao lado de Uruguai e Chile, com 12 tentos. Enner Valencia e Miler Bolaños são ótimos e perigosos atacantes, velozes e donos de muita habilidade e qualidade técnica.

(Foto: Rodrigo Buendia/AFP/Getty Images)

O meio-campo armado por Gustavo Quinteros é muito organizado, e tem uma ótima notícia com Antonio Valencia voltando a jogar bem no Manchester United e chegando com bom ritmo e em boa fase na seleção depois de um tempo considerável, além de contar com outros nomes interessantes e de talento, como Quiñónez e Fidel Martínez. A defesa também tem se saído bem, com destaques para Mina, bom zagueiro, e o lendário Ayoví, que aos 37 anos ainda rende bem e é a grande liderança da seleção.

O Equador tem um time bem organizado, entrosado e com uma defesa capaz de segurar os ataques rivais e permitir que a equipe explore sua principal arma: os contragolpes em alta velocidade pelos flancos. Além do bom jogo coletivo, os destaques individuais estão aparecendo e El Tri tem bons jogadores. A tarefa do Brasil também é ainda mais complicada pelo fato de enfrentar o rival fora de casa. A Seleção nunca bateu os equatorianos em Quito pelas Eliminatórias, desde que o qualificatório passou a ser disputado no sistema todos contra todos, em 1994. Foram três gols sofridos e apenas um marcado. Além disso, a equipe de Quinteros é dominante na cidade. Na campanha passada das Eliminatórias, o selecionado equatoriano conquistou 22 dos 25 pontos disputados em seus domínios.

A tarefa brasileira nesta quinta-feira certamente não é fácil. É a estreia de Tite, com uma nova mentalidade, mas sem muito tempo para trabalhar, com algumas escolhas contestáveis e contra um adversário complicado, fora de casa. Por isso, acima de tudo, é preciso ter calma e tranquilidade. O treinador pode fazer a Seleção melhorar consideravelmente e evoluir, mostrando um futebol de outro patamar e brigando contra os melhores. Qualidade técnica, talento e capacidade tática dos jogadores e do técnico para isso existem. No entanto, é preciso ter paciência e deixar o imediatismo e a cultura do futebol de resultado de lado. É preciso deixar Tite trabalhar e aceitar um resultado inesperado contra o Equador.


Fonte: Goal.com

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