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Editorial: Vítimas do machismo

Afirmar, repetidas vezes, que estuprar é crime não basta. No Brasil, a cada 11 minutos uma mulher é violentada sexualmente. Além de ações coercitivas e atitudes preventivas, é essencial desconstruir a cultura machista e conservadora existente no país, que deprecia as mulheres e reserva a elas condição de objeto da satisfação masculina. Até o universo feminino (32%) está contaminado pela equivocada ideia de que as vítimas provocam a agressão ao usarem roupas provocantes, como saias curtas e decotes avantajados. Entre os homens, 42% as culpam pela violência por eles praticada. É o que revela pesquisa encomendada pela organização não governamental Fórum Nacional de Segurança Pública ao DataFolha.

O estudo foi lançado, ontem, no 10º Encontro Anual do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, que tem como tema “Violência contra a mulher, acesso à Justiça e o papel das instituições públicas”. Foram entrevistadas 3.625 pessoas, com 16 anos ou mais, em 217 municípios de todos os portes. Entre as mulheres, 85% têm medo de ser estupradas, e no meio masculino, 46% também temem ser violentados. Entre os objetivos do trabalho, estão o de contribuir para o desmonte da culpabilização da vítima e sensibilizar as autoridades policiais que tratam com descaso as denúncias de estupro.

Envergonhadas, muitas vítimas não recorrem à delegacia de polícia para registrar queixa, o que torna os dados sobre ocorrências irreais. Não à toa, pois a pessoa agredida fica inibida e teme encontrar autoridades que a responsabilizam pela agressão sofrida. Não falta no Legislativo quem faça apologia do crime, sob o argumento de que, dependendo da mulher, ela não merece sequer estuprada. Assim, em vez de avançar, atitudes retrógradas são reafirmadas, como expressão de virilidade masculina.

Mas o estudo mostra também que o cenário tende a ser modificado. Mais de 60% dos homens discordam da ideia de que quem usa roupas ditas provocantes não podem reclamar de violência sexual. Para 91% dos entrevistados, é preciso “ensinar os meninos a não estuprar”. Reconhecem que a escola e o ambiente familiar são espaços adequados à formação dos meninos para a cultura da equidade e de respeito se sobreponha ao machismo, que exalta a violência contra a mulher.

Mas a mudança precisa alcançar as instituições, sobretudo, os órgãos ligados à segurança dos cidadãos, com formação adequada para agentes da segurança pública e operadores do sistema do Judiciário. Hoje, 50% dos brasileiros não acreditam que a Polícia Militar esteja preparada para acolher a vítima de violência sexual. Entre os consultados com nível superior, a descrença na PM chega a 69%. Para 53%, a legislação protege os estupradores, que, se condenados, podem cumprir pena de 6 a 12 anos de reclusão, e, em situações excepcionais, a pena máxima de 30 anos. Além de educação, como instrumento de eliminação do machismo, é indispensável que as vítimas sejam acolhidas e recebam tratamento médico e especializado para superarem os traumas causados pela inominável violência.


Fonte: Diário de Pernambuco

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