Espancamento de universitário em BH expõe desafio para conter violência na saída de boate

O espancamento de um estudante de medicina ao sair de uma casa de eventos, por seis jovens, acende a luz de alerta sobre o clima de violência nas baladas da noite belo-horizontina e cidades da região metropolitana. É o quarto caso de agressão por motivos fúteis no fim da noitada este ano e expõe os desafios para conter a violência na saída das noitadas. Em dois deles ocorreram mortes. A Polícia Civil já está investigando as circunstâncias desse último ataque, que tem rendido dezenas de mensagens de solidariedade à vítima nas redes sociais.

Na madrugada de quarta-feira, Dia da Independência, o estudante de medicina Henrique Figueiredo Papini de Moraes, de 22 anos, estava em companhia de um colega do Colégio Loyola, onde estudou, e uma amiga de faculdade num show de funk na casa de evento Hangar 677, no Bairro Olhos D’água, Região do Barreiro, em Belo Horizonte. Na saída, foi surpreendido pelo ex-namorado da jovem, que com outros cinco colegas dele espancou o estudante.

“Todos estavam do lado de fora. O rapaz que foi agredido seguia com um colega e uma jovem para um local para pegar um Uber, quando foi agredido. Ele foi espancado covardemente por seis caras, e mesmo caído, ainda foi chutado. Desacordado, foi levado para um hospital por uma equipe do Samu”, contou uma testemunha, que preferiu não se identificar.

A delegada Sônia Maria Miranda, da Delegacia do Barreiro, onde foi registrado o boletim de ocorrência, iniciou as investigações no dia seguinte ao feriado. Ela fez contato com os responsáveis pela casa de evento em busca de informações e imagens de câmeras de segurança. Ontem, foi a vez de ela ouvir os dois jovens que acompanhavam o estudante no momento da agressão. A delegada esteve também no hospital e ouviu Henrique e sua mãe.

De acordo com a assessoria da Polícia Civil, agora, o rapaz de 21 anos, apontado como quem iniciou a agressão por ver sua ex-namorada em companhia do estudante, será ouvido na condição de investigado no inquérito que foi instaurado. No dia do ataque, depois que a mãe de Henrique chamou a Polícia Militar, o jovem chegou a ser conduzido ao plantão da Delegacia do Barreiro, mas foi ouvido e liberado.

COMA Henrique Papini, segundo sua mãe, a dentista Andrea Moraes, de 54, foi internado em coma no Centro de Tratamento Intensivo (CTI) do Hospital Biocor, com traumatismos craniano e de face, além de sangramento no ouvido. “Hoje ele está bem melhor, consciente, conversando. Mas está muito abalado emocionalmente, sentindo medo. Certamente, terá que passar por acompanhamento psicológico para superar esse trauma”, destacou. Andrea acrescentou que o carinho dos amigos de seu filho, com mensagens na rede social, tem sido importante para sua recuperação.

Ontem, a direção da Faculdade de Medicina de Barbacena (Funjob) divulgou nota na rede social lamentando o episódio de violência contra o aluno. O texto é assinado pelo diretor da instituição, Marco Aurélio Bernardes de Carvalho. “Venho manifestar publicamente o meu repúdio pelo lamentável fato ocorrido com nosso querido aluno e esperando que as pessoas envolvidas sejam devidamente punidas por esse ato de violência imperdoável”.

POLÍCIA APOSTA EM RONDAS E REDES O capitão Flávio Santiago, chefe da Sala de Imprensa da Polícia Militar, afirma que rondas estratégicas têm sido realizadas nas madrugadas nos chamados “pontos quentes”, que são locais onde ocorrem eventos, shows, festas ou em que estão casas noturnas, visando inibir a violência entre o público que sai. “É importante destacar que essas ocorrências com violência desmedida estão ligadas ao consumo de bebidas alcoólicas de forma exagerada”, pontuou. Santiago destaca que em muitos estabelecimentos da noite, os donos e seus funcionários participam de redes de policiamento comunitário, o que facilita a rápida intervenção da PM.

Já o diretor-executivo da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel) em Minas Gerais, Lucas Pêgo, afirma que as casas noturnas da Grande BH, em sua maioria, são bem preparadas e seguras. “Principalmente após o episódio de Santa Maria (RS) – quando 242 pessoas morreram num incêndio na Boate Kiss, em 2013 – os estabelecimentos melhoraram acessos, saídas de emergência e de pânico, dispositivos como câmeras de segurança e seguranças treinados”. Para ele, casos como o espancamento do estudante de medicina fomentam o debate dos empresários do ramo para melhorar o atendimento ao seu público. “Mas, em comum, nesses casos, sempre são agressões do lado de fora dos estabelecimentos, onde os seguranças não podem intervir”, disse o dirigente.

Somente em abril deste ano houve três casos de violência depois da balada na Grande BH. No dia 2, um jovem foi agredido quando estava no estacionamento de uma boate em Nova Lima. No dia 8, em Contagem, o universitário Cristiano Nascimento, de 22, foi espancado até a morte por dois policiais militares de folga e um colega deles. Os PMs estão presos respondendo a processo e o terceiro envolvido foragido.

No dia 29, mais uma morte, na porta da casa de shows Alambique, na Avenida Raja Gabaglia, no Bairro Estoril, Oeste da capital. Guilherme dos Santos Alves, de 33, foi morto com um tiro, depois de iniciada uma discussão, ainda dentro do estabelecimento, com Paulo Filipe da Silva Gonçalves, de 28, preso por militares quando fugia.

Entrevista

Andrea Renno de Figueiredo, de 54 anos, mãe do estudante Henrique Papini

“Esta corrente que está sendo feita é porque ninguém aguenta mais esta impunidade, esta violência”

Passado o susto, como você avalia as condições de seu filho?
Primeiro, agradeço a Deus porque foi um milagre mesmo! O neurologista disse que nunca viu alguém que tenha levado uma pancada tão forte e sobrevivido. Chegou de uma forma e está outro hoje, lúcido e respondendo. Para mim, foi um milagre.

Como se manter de pé para superar uma violência desmedida como a que seu filho sofreu?
O que sustenta a gente é a fé, a amizade, os amigos, a minha família. A minha consciência de saber que meu filho é um ser bacana, querido, bem criado, com limites. Que, apesar de a gente não ter dinheiro, não ter jatinho, isso que eles têm, a gente tenta construir valores que valem a pena. Hoje, os amigos da faculdade de Barbacena onde ele estuda estão mobilizados, a direção divulgou nota de apoio na rede social, colegas do Loyola e de onde ele fez intercâmbio já estão sabendo, e assim vai, nossos amigos, colegas de trabalho, isso é maravilhoso.

Para você, o que motiva esse tipo de agressões e como isso pode mudar?
Acho que realmente a gente tem que mostrar o que é certo e o que é errado. Isso não é de agora não. É pai e mãe que passam a mão na cabeça, que deixam, que acham bonito colocar fogo no índio, dar bebida para cachorro. Então a coisa começa a se banalizar, a vida humana está banalizada, está tudo muito fácil, estão matando para ver cair. Acho que a gente tenta tirar algo proveitoso sim, que isso pode ser evitado sim. Esta corrente que está sendo feita é porque ninguém aguenta mais esta impunidade, esta violência. É menino que sai de casa e a gente não sabe se vai voltar. A gente tem que tomar atitude como cidadão.

 


Fonte: Diário de Pernambuco

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