Estreia por acaso, dinheiro emprestado, zoeira sem fim e ajuda de espião do rival: as anedotas de um Fenômeno no Cruzeiro

Aniversariante do dia, Ronaldo começou a brilhar e aparecer para o mundo na Raposa, e a Goal Brasil conta algumas de suas melhores histórias em BH

Dizem por aí que a vida começa depois dos 40. Olha, esse não é o caso de Ronaldo Luís Nazário de Lima, ou pelo menos não pode ser. Um dos melhores jogadores da história do futebol, o Fenômeno tem histórias e uma carreira invejáveis, vários momentos espetaculares, voltas por cima, golaços, lances mágicos e jogadas e dribles memoráveis. Não à toa, ele está na galeria dos maiores craques de todos os tempos.


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Ao falar de Ronaldo, é normal lembrarmos das Copas do Mundo de 1998 e 2002, dos feitos incríveis com a Seleção Brasileira, de golaços, grandes lances e títulos por Barcelona, Real Madrid, Internazionale e PSV, e também das polêmicas, lesões, superações e passagens por Milan e Corinthians. Ao falar do início do Fenômeno, o São Cristóvão sempre é lembrado. No entanto, apesar de abordado, o período do lendário atacante no Cruzeiro não é tão comentado quanto deveria, o que é uma pena, diante das incontáveis histórias deliciosas do jogador em Belo Horizonte.

(Foto: Reprodução)

Foi na Raposa que Ronaldo começou a brilhar e aparecer para todo o mundo, e no dia em que o Fenômeno completa 40 anos, a Goal Brasil conta algumas das melhores histórias do atacante no Cruzeiro.

Para isso, o ex-zagueiro Célio Lúcio, que jogou com Ronaldo no Cruzeiro em 1993 e 1994, foi convocado pela reportagem. O ex-defensor foi ídolo celeste na década de 1990, atuando com o manto estrelado entre 1991 e 1997, e hoje trabalha nas categorias de base do clube. O Fenômeno, por sua vez, chegou do São Cristóvão para o juvenil da Raposa em 1993, e rapidamente foi para o time profissional, onde ficou até a Copa do Mundo de 1994 – depois do Mundial, o atacante foi para o PSV.

No time celeste, Ronaldo foi espetacular. Não à toa, foi disputado por gigantes europeus e virou um dos maiores de todos os tempos. Segundo o Almanaque do Cruzeiro, ele marcou 56 gols em 58 jogos pelo clube. Sua estreia como profissional aconteceu com apenas 16 anos, e entre vários lances e jogos espetaculares, dois se destacam. A atuação de gala com cinco gols e uma assistência na goleada por 6 a 0 sobre o Bahia, incluindo o histórico tento em que ele aproveita o vacilo do lendário goleiro uruguaio Rodolfo Rodríguez para marcar um gol memorável.

Outro momento marcante foi o hat-trick no triunfo por 3 a 1 no clássico contra o Atlético-MG, logo em seu primeiro dérbi, quando ele também entortou o zagueiro uruguaio Kanapkis com uma sequência de dribles.

Existem, porém, várias outras histórias deliciosas sobre Ronaldo no Cruzeiro. Confira as melhores delas, contadas por Célio Lúcio, em entrevista exclusiva à Goal Brasil:

O jovem Ronaldo

“Eu não joguei com o Ronaldo, ele quem jogou comigo (risos). Eu já estava no profissional. Me profissionalizei em 1991, e ele subiu em 1993. Ele jogou comigo em 1993 e 1994. Mas tenho o prazer de dizer que joguei com ele e dizer que ele foi o melhor com quem eu joguei e foi o melhor que eu vi jogar. Ele era completo.”

“Naquela época tinha uma hierarquia. Quem subia para o profissional respeitava os mais velhos. Hoje em dia, os meninos são mais espaçosos (risos). É que o futebol modernizou. Hoje em dia, o garoto muito novo já tem uma personalidade mais forte porque já tem contrato no clube nas categorias de base, contrato com patrocinador, empresário… Então o garoto às vezes já chega no profissional querendo tomar conta.”

(Foto: Getty Images)

“Mas o Ronaldinho não era assim não, eu acompanhava ele desde o juvenil, quando ele chegou e morava na Toca I, onde a gente morou também, e a gente já percebia que ele seria grande. Eu costumo dizer que existem pessoas que têm o dom, e o Ronaldo era assim. Ele não fazia força para jogar e fazia coisas que se a gente fosse fazer, ia precisar de um milagre para acontecer (risos). No juvenil e no júnior, o Ronaldo já fazia coisas incríveis.”

“Eu acreditava que o Ronaldo ia ser grande e conquistar tudo o que conquistou porque ele já mostrava uma qualidade enorme quando garoto e tinha muito talento e potencial. Tanto é que ele não mudou muito. Depois, na sequência da carreira dele, ele não tinha um estilo diferente do que tinha quando garoto. Ele continuou com as arrancadas fortes, os dribles fáceis, sempre buscando o gol, tendo um raciocínio muito rápido… Até mesmo nas entrevistas ele não mudou muito e continuou da mesma forma. Ele tem a mesma humildade e sinceridade de quando tinha 17 anos. A gente já percebia que ele seria grande no futebol, mas é claro que ele foi tão longe e alto que a gente não tinha tanta noção de estipular onde ele chegaria.”

Ameaçado por lenda

“Às vezes, nós do profissional treinávamos com o júnior e o juvenil, e enfrentávamos o Ronaldo. E essa situação é interessante, porque quando você está no juvenil ou no júnior, um treino contra o profissional é muito valorizado e você dá o máximo, todo mundo treina forte e o treino é a sua vida. Mas na época, no profissional, eu fazia dupla com o Luizinho (lendário ex-zagueiro do Atlético-MG e da Seleção Brasileira), que já era veterano no fim de carreira, e eu era mais novo e estava começando.”

(Foto: Reprodução)

“O Ronaldinho, na época de juvenil, já dava aquelas arrancadas driblando e partindo pra cima que deu durante toda a carreira, então, o Luizinho, já mais velho, ficava louco e tentando intimidar ele nos treinos: ‘moleque, eu vou te quebrar, vou te arrebentar e te pegar, hein’. Era muito marcante pra gente, porque o Luizinho craque, já tinha jogado na Seleção e tudo, mas quando a gente ia treinar com o juvenil, ele já reclamava: ‘p*** me***, Célio, a gente vai ter que marcar aquele moleque hoje’.”

“Aí eu brincava também, falando que a gente tinha que dar um jeito mesmo e ele comentava: ‘olha, você pega ele e eu fico na sobra’ (risos). Mas eu era malandro e às vezes não pegava só pro Luizinho ter que marcar ele no um contra um. O moleque era diferente mesmo, tinha uma leitura muito rápida e sempre buscava o gol. Já era difícil marcar ele no treino, no juvenil, era impressionante.”

Moleque sem marra

“A convivência com ele no profissional era muito tranquila. O Ronaldo era um menino humilde, muito centrado e que sempre obedecia os mais velhos – não no meu caso, porque a nossa diferença de idade não era muito grande (apenas cinco anos) -, principalmente o Paulo Roberto e o Boiadeiro. O Ronaldo aprendeu muito com eles e escutava muito os mais velhos. Acho que isso foi muito importante pra ele.”

Estreia como profissional por acaso

“O momento mais especial que eu tenho do Ronaldo no Cruzeiro foi quando ele entrou no jogo contra o Peñarol, em um torneio que disputamos em Portugal, e ele fez um golaço, parecido com aquele que ele fez pelo Barcelona. Ele pegou a bola no meio-campo, deu uma arrancada, saiu driblando todo mundo e fez o gol. Foi um golaço e no primeiro jogo dele.”

(Foto: Divulgação/Cruzeiro)

“Um caso que contam aqui é que ele foi para esse torneio por acaso, porque faltou uma vaga para fechar o elenco e não tinha mais ninguém no profissional com passaporte para ir viajar, e como o Ronaldo já tinha, porque tinha ido com a Seleção de base, ele acabou indo. Ele já tinha a possibilidade de subir para o profissional, mas o primeiro jogo dele foi assim. Inclusive, nesse jogo contra o Peñarol, se não me engano, o Nivaldo saiu na cara do gol e perdeu o gol no começo do jogo, aí o Carlos Alberto Silva (então treinador do Cruzeiro), já tirou ele e colocou o Ronaldo, que entrou e fez aquele golaço.”

Trollado pelos mais velhos

“Na época a gente mexia com ele e sacaneava ele com os dentes dele (risos). A gente pegava no pé dele demais, coitado. Os dentes dele eram pra fora (risos). Mas a ascensão dele foi tão rápida que logo que ele subiu para o profissional ele foi fazer um tratamento, acho que o tratamento foi até de graça (risos). Ele colocou aparelho e fez tudo certinho.”

Dinheiro emprestado

“Ele veio de uma situação financeira muito difícil, como quase todos nós. Mas a turma era muito bacana e legal, então de vez em quando ele pedia dinheiro e tênis, a turma sempre dava ajudava. O grupo nosso era muito legal.”

Amigo espião do rival

“Teve um clássico contra o Atlético-MG, que na semana, o Toninho Cerezo (ex-Galo, São Paulo e Seleção Brasileira, ídolo atleticano) ficou orientando ele no posicionamento e em uma jogada, e teve um gol que foi justamente por causa do treinamento dele e das orientações do Cerezo durante a semana toda. Mas a gente também ficou brincando com ele, falando que ele ia causar a demissão do Kanapkis, que ia ficar sem emprego. O Ronaldo entortou o rapaz, coitado (risos).”

Nota da reportagem: no jogo mencionado, Ronaldo, em sua estreia no clássico mineiro, marcou um hat-trick na vitória celeste por 3 a 1 e ainda entortou o zagueiro uruguaio Kanapkis com uma sequência de dribles.

Já era festeiro antes da Europa

“Aqui no Cruzeiro não precisava pular muro para fugir da concentração (risos). O Ronaldo gostava de sair, ir para festa e tudo. Normal, né, tava em evidência no Cruzeiro, Seleção Brasileira, Copa do Mundo, tinha 17 anos só, era solteiro… Mas ele nunca deixou a gente na mão, só fazia essas coisas na hora certa, não faltava treino, era um ótimo profissional.”

Mágoa do Cruzeiro?

“Depois que o Ronaldo saiu do Cruzeiro, ele sempre teve muita coisa pra fazer. Não acho que exista isso de ele ter raiva, mágoa ou algo do tipo do Cruzeiro. É que ele tem muita coisa pra fazer, não sobra tempo, é muita mídia em cima também. É claro que eu acho que ele deveria vir mais e visitar, mas é uma cobrança meio injusta e egoísta até.”

“Ele foi muito bem tratado aqui e foi muito valorizado no Cruzeiro. É claro que na época não tinham os campos ideais para treinar e faltavam algumas coisas, o Cruzeiro estava numa crescente ainda, mas eu vivi isso na pele e fez parte do crescimento do Cruzeiro e também meu como profissional, e a estrutura já era boa e não me faltou nada. Esse negócio de que faltou alimentação e coisas do tipo pra ele, é balela, não teve nada disso. Na minha época, e eu estava aqui antes dele, em uma situação que era mais difícil, não tinha nada disso. Acredito que seja mais uma questão de tempo, e ele teve umas amizades muito boas aqui.”


Fonte: Goal.com

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