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Evaldo Costa: Nós e os americanos

Os americanos acabam de inaugurar o Museu Nacional de História e Cultura Afro-americana, do Instituto Smithsonian, dedicado a contar a história da escravidão e da inserção dos descendentes de escravos na sociedade americana. O evento de inauguração reuniu Obama (com Michelle) e George W. Bush, o presidente que assinou, em 2003, a lei autorizando a criação do Museu. Também estavam lá duas centenas de celebridades, homens e mulheres, brancos e pretos, políticos e artistas, de Bill Clinton e Joe Biden a Will Smith, Oprah Winfrey, Bob de Niro e Steve Wonder.

O MNHCAa custou US$ 550 milhões – algo em torno de R$ 2 bilhões – e foi financiado por doações de aproximadamente 100 mil pessoas. Numa continha simples, chega-se à conclusão que a doação média ficou na casa dos R$ 2 mil. Eu me pergunto quantos brasileiros estariam dispostos a doar R$ 100,00 para a construção de um museu dedicado à história da escravidão e da marginalização secular dos descendentes de escravos na sociedade brasileira.

Suspeito que não haveria 100 mil doadores para museu de nenhum tipo, mas menos ainda para um museu que dê realce ao fato de que a maior parte das fortunas e nobiliarquias sobre as quais se sustentam o poder político e o poder econômico no Brasil carregam em seu DNA a marca de um crime contra a humanidade. ?Não é por acaso que se ouve cada vez mais resmungos vindos de supostos progressistas contra políticas de cota ou quaisquer outras formas de compensação às vítimas da barbárie escravocrata.?

Durante a inauguração, os fotógrafos se agitaram no momento em que Michelle Obama abraçou George Bush, calorosamente. Em seu discurso, o ex-presidente republicano lembrou que “nenhuma grande nação esconde a sua história” e que o museu inaugurado “mostra o compromisso com a verdade de um país que manteve milhões acorrentados”.

Já Obama falou sobre a importância simbólica de o novo museu ter sido erguido no coração simbólico do país, ou seja no parque nacional de Washington, defronte do obelisco que evoca George Washington, o primeiro presidente americano, e a distância equivalente entre o Congresso americano e aquele templo que eles chamam de Lincoln Memorial.?

Quiseram alguns bem pensantes, em certa época, celebrar a “democracia racial” brasileira e condenar a forma pela qual os pretos eram tratados nos Estados Unidos. Mal se passaram cinquenta anos e o que vemos é um presidente negro inaugurando uma instituição como este Museu Nacional de História e Cultura Afro-americana cuja implantação foi iniciada por um presidente branco e tido por muitos como estúpido e fascista.

Enquanto isso, no Brasil, o que se vê é todo um movimento articulado apoiado por setores de grande peso político na mídia e nas instituições de representação da sociedade, para, de um lado suprimir políticas sociais, reestruturar a previdência social reduzindo direitos e, do outro, uma concertação falsamente progressista direcionada a proteger privilégios descabidos, obtidos, por direito de casta, por certos setores do serviço público, que se locupletam com aposentadorias e pensões milionárias. Ou seja, mais um vez perderão os que sempre perderam.


Fonte: Diário de Pernambuco

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