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Fernando Araújo: As mãos e os adeuses

Por Fernando Araújo

Advogado e professor de direito

Leio na mídia nacional que uma figura icônica da aviação vai desaparecer. O sinalizador, balizador ou “flanelinha” de avião, aquela figura que fica na pista movimentando os braços com dois bastões laranja nas mãos para orientar o piloto a estacionar no local determinado. Pela ordem que foi estabelecida, o primeiro aeroporto do país a não mais contar com esse profissional será o de Guarulhos/SP. 

As notícias dão conta de que esse tipo de serviço já não mais existe em aeroportos como Heathrow, em Londres, Charles de Gaulle, em Paris e JFK, em Nova York. E mais: o novo programa implantado e conhecido como VDGS, ou sistema avançado de docagem visual, usa sensores para reconhecer a posição da aeronave na vaga. Portanto, o piloto conhecerá sua vaga por meio de sinais e fará as manobras necessárias. E assim se contará o fim de mais uma profissão. 

Não tenho nada contra o progresso, senão um carinho especial por essas pessoas que confirmavam a minha chegada a algum lugar com seus gestos. Quase a representar um balé manual. Como no poema de Giuseppe Ghiaroni (Monólogo das Mãos), eram eles que mostravam para que servem as mãos. Eu via admirado uma imensa máquina a obedecer aos comandos de duas mãos. Terei tanta saudade deles quanto tiveram os que viram partir os últimos acendedores de lampiões, por sinal a mais sentimental das profissões extintas. 

Ah, o nosso tempo é mesmo de adeuses! A tecnologia sofisticada levou para sempre nossas eficientes datilógrafas. Agora somos nós que fazemos as ligações de longa distância sem sequer lembrar das antigas telefonistas. A era digital as eliminou. Os caixas de estacionamento estão partindo e, em breve, os frentistas. Talvez estes ainda resistam, pois forçar alguém a colocar sua própria gasolina é expô-la, como dizem, a ter contato com uma atividade insalubre e perigosa. E o que dizer do vendedor porta a porta desde o tempo de Manuel Bandeira? Em “Evocação do Recife”, ele falou: “Rua da União onde todas as tardes passava a preta das bananas/Com xale vistoso de pano da Costa/E o vendedor de roletes de cana/O de amendoim/Foi há muito tempo”. Que diria ele hoje em contraponto ao seu próprio poema? Pois bem, esse tipo de vendedor também sumiu, principalmente depois que surgiu a compra por internet e a possibilidade de receber o produto em casa em tempo hábil. Em um futuro muito breve, provavelmente esses bastões laranja venham a ser ofertados em algum leilão do mundo. O leiloeiro então vai dizer eufórico que aqueles bastões orientaram a aeronave que conduziu pela primeira vez tal celebridade a tal cidade etc. E como no poema de Mauro Mota (Leilão) ele vai continuar:”Quanto dão? /Quem dá mais…/Bate o martelo, bate aqui, dói longe”.


Fonte: Diário de Pernambuco

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